Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

“Já Passou” - É uma Forma de Silêncio

Essa frase costuma aparecer quando o sofrimento do outro começa a incomodar mais do que mobilizar. Quando a dor deixa de ser novidade e passa a exigir paciência, presença e tempo, coisas que raramente estamos dispostos a oferecer.

Dizer “já passou” é uma tentativa de encerrar algo que ainda pulsa. É uma forma socialmente aceitável de pedir que o outro se reorganize rapidamente para não perturbar o ambiente, a relação ou a narrativa de normalidade.

O problema não é desejar que a dor cesse. O problema é tratar o sofrimento como algo que deveria obedecer ao cronograma alheio.

Há experiências que não se dissolvem. Elas se reorganizam. Mudam a forma como confiamos, como nos aproximamos, como interpretamos o mundo. Exigir que “passem” é negar que algo real aconteceu.

O discurso do “já passou” é uma exigência disfarçada de consolo. Ele pede adaptação sem escuta, superação sem travessia, retorno à funcionalidade sem reconhecimento da ruptura. É um pedido para que o outro funcione melhor, não para que se sinta melhor.

Quando não há espaço para aquilo que foi vivido, o sofrimento não desaparece. Ele muda de forma. Volta como desconfiança, retraimento, hipervigilância, cansaço emocional. Volta porque não encontrou lugar.

Há algo de autoritário nessa frase. Ela define de fora o tempo do outro, como se fosse possível determinar quando uma ferida deveria deixar de doer. Como se a experiência pudesse ser apagada por repetição verbal.

Seguir vivendo não é o mesmo que estar ileso. Retomar a rotina não significa que nada tenha sido perdido.

Talvez o gesto mais honesto não seja apressar o fim da dor, mas admitir que não sabemos o que fazer com ela. Que sustentar o sofrimento do outro é difícil. Que o silêncio, às vezes, é mais cuidadoso do que uma frase pronta.

Porque aquilo que realmente passou não precisa ser decretado.
E aquilo que precisa ser encerrado à força, provavelmente ainda está vivo.

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“Democracia por Conveniência”

Eu não gosto de ditadura.
Não gosto mesmo. Não gosto de autoritarismo, de culto à personalidade, de eleições coreografadas nem de regimes que tratam o Estado como propriedade privada. Isso não é novidade, nem posição corajosa. É o mínimo civilizatório.

O que me intriga é outra coisa.

Tenho dificuldade em acompanhar essa nova modalidade de defesa da democracia, uma versão flexível, seletiva e, curiosamente, muito ativa apenas em determinados mapas. Uma democracia que se indigna com rapidez cirúrgica, atravessa fronteiras com discursos morais bem ensaiados e se autoriza a fazer aquilo que, em outros contextos, chamaria de golpe, invasão ou abuso de poder.

Entrar em outro país, sequestrar um chefe de Estado e rebatizar a operação como “combate ao narcotráfico”, “defesa da liberdade” ou “ação humanitária” exige uma elasticidade conceitual admirável. A democracia, ao que parece, anda se beneficiando de um vocabulário criativo.

O curioso é que essa urgência moral não se distribui de forma homogênea. Há países onde a fome é estrutural, a repressão é cotidiana e a violência estatal é regra e, ainda assim, não despertam comoção suficiente para grandes cruzadas democráticas. Nenhum discurso inflamado, nenhuma pressa salvacionista, nenhum pacote de sanções acompanhado de coletiva de imprensa.

Outros, no entanto, parecem funcionar como gatilhos automáticos de indignação. Bastam algumas imagens, uma narrativa conveniente e pronto: ativa-se o modo “defesa da democracia”, geralmente conduzido por quem não é exatamente conhecido por zelo institucional dentro de suas próprias fronteiras.

É difícil não notar o padrão.

A democracia, nesse registro, deixa de ser princípio e passa a ser instrumento. Não se trata mais de proteger direitos, mas de justificar ações. Não se trata de coerência ética, mas de conveniência geopolítica. A pergunta deixa de ser “o que está acontecendo?” e passa a ser “onde está acontecendo, e com quem?”.

Nada disso transforma ditaduras em algo aceitável.
Elas continuam sendo o que sempre foram: regimes de concentração de poder, silenciamento e, violência simbólica e material. O problema é fingir que o abuso só é abuso quando praticado por determinados atores, e que, em outros casos, ele pode ser reembalado como virtude.

Abuso de poder continua sendo abuso, mesmo quando vem acompanhado de um discurso moral sofisticado. Intervenção continua sendo intervenção, mesmo quando recebe codinomes nobres. E violação de soberania não deixa de ser violação só porque foi apresentada como “necessária”.

Talvez o mais honesto fosse admitir que a democracia, no cenário internacional, raramente é o fim. Ela costuma ser o meio. Um meio útil, retórico, mobilizador, mas aplicado de forma desigual, conforme interesses que pouco têm a ver com o bem-estar real das populações envolvidas.

No fundo, o incômodo não é com a condenação das ditaduras.
É com a seletividade dessa condenação.

Quando a democracia vira argumento e não valor, ela perde a capacidade de proteger e ganha a função de autorizar. Autorizar sanções, invasões, tarifas punitivas, pressões econômicas e rearranjos de poder que, curiosamente, quase nunca atingem quem decide, apenas quem já vive em condições precárias.

Deve ser coincidência.
Ou talvez a democracia, assim como a indignação, funcione melhor quando alinhada a interesses estratégicos.

Ditadura continua sendo inaceitável.
Autoritarismo também.
Mas a hipocrisia moral que escolhe quando e onde se indignar não fica muito atrás.

E chamá-la de liberdade não a torna menos violenta, apenas mais bem apresentada.

 

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“O Elogio da Resiliência É uma Forma de Violência”

A resiliência se tornou uma palavra admirável.
Ela circula como elogio, como meta, como exigência moral. Espera-se que sejamos resilientes diante da perda, da traição, da violência, da precariedade, da sobrecarga. Espera-se que suportemos, e que façamos isso com dignidade.

Mas há algo profundamente perverso nessa admiração.

Quando a resiliência é celebrada sem questionamento, ela deixa de ser uma capacidade e passa a ser uma cobrança. Um imperativo silencioso que diz: aguente, adapte-se, não pare, não complique.

O elogio da resiliência raramente vem acompanhado de uma pergunta sobre as condições que tornaram essa resiliência necessária. Pelo contrário: ele costuma funcionar como absolvição do contexto. Se alguém consegue suportar, então o sistema que produz o sofrimento não precisa mudar.

Aplaude-se quem aguenta, e naturaliza-se aquilo que fere.

Há uma violência sutil em exigir resiliência contínua. Ela transforma o sofrimento em teste de caráter. Quem não suporta é visto como frágil, imaturo ou insuficientemente preparado para a vida. O problema deixa de ser o excesso de exigência e passa a ser a suposta incapacidade de lidar com ela.

Resiliência, nesse registro, não é força.
É adaptação forçada.

Ela aparece quando a dor não pode ser interrompida, quando a injustiça não será corrigida, quando a perda não será reparada. E, ainda assim, espera-se que o sujeito continue funcional, produtivo, disponível, emocionalmente regulado.

Famílias elogiam a resiliência para não tocar no conflito.
Instituições a celebram para manter desempenho.
Discursos motivacionais a vendem como solução individual para problemas coletivos.

O resultado é um sujeito cansado, culpado e silencioso. Alguém que sofre, mas aprende a sofrer sem atrapalhar. Que se adapta, mas às custas de si.

Há algo de profundamente político nisso. A resiliência, quando exaltada dessa forma, serve para preservar estruturas que adoecem. Ela desloca a responsabilidade do mundo para o indivíduo. Se você não deu conta, faltou resiliência, nunca condições.

Não se trata de negar a capacidade humana de atravessar adversidades. Trata-se de recusar a romantização da sobrevivência. Nem toda adaptação é saudável. Nem todo silêncio é maturidade. Nem toda força é escolha.

Às vezes, não ser resiliente é um gesto de lucidez.
É reconhecer que algo ultrapassou o limite do suportável.
É recusar a lógica que transforma violência em treino emocional.

Talvez o que falte não seja mais resiliência, mas menos exigência.
Menos heroísmo cotidiano.
Menos elogios à capacidade de aguentar o que não deveria ser imposto.

Porque há sofrimentos que não pedem adaptação.
Pedem interrupção.
E continuar chamando isso de resiliência é apenas uma forma elegante de manter tudo exatamente como está.

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“Ciência Não É Opinião Bem Escrita”

Vivemos um tempo em que saber argumentar parece mais importante do que saber do que se está falando. Uma boa retórica, algumas referências soltas e um discurso seguro bastam para transformar opinião em “conhecimento”. O problema é que ciência não funciona assim, e a clínica tampouco.

Ciência não é aquilo que soa convincente.
Não é o que gera engajamento.
Não é o que confirma crenças prévias com uma linguagem elegante.

Ciência exige método, confronto com dados, revisão constante e, sobretudo, disposição para sustentar limites. Ela avança mais pelo reconhecimento do que não sabe do que pela afirmação precipitada do que supostamente domina.

Na psicologia, essa confusão é especialmente perigosa. Porque lidamos com sofrimento humano, com decisões que impactam vidas reais. Quando opinião se disfarça de conhecimento, o risco não é teórico, é ético.

Há uma sedução contemporânea pela simplificação. Protocolos rápidos, explicações fáceis, promessas de eficácia imediata. Tudo muito organizado, muito bem apresentado, muito pouco interrogado. A técnica vira produto, e o pensamento clínico vira acessório.

Formação, nesse cenário, passa a ser confundida com acúmulo de certificados. Quanto mais rápido, melhor. Quanto mais aplicável, mais vendável. O problema é que clínica não se sustenta em atalhos. Sem base sólida, o que se aplica vira repetição mecânica, e repetição não é cuidado.

Opinar sobre ciência é fácil. Sustentar prática baseada em evidência é trabalhoso. Exige estudo contínuo, supervisão, confronto com limites pessoais e reconhecimento de que nem toda pergunta tem resposta pronta. Exige, acima de tudo, responsabilidade.

A diferença entre ciência e opinião não está no tom de voz, nem na segurança com que se fala. Está no compromisso com aquilo que pode ser questionado, testado e revisado. Opiniões resistem à crítica; ciência depende dela.

Quando a psicologia se afasta desse compromisso, ela corre o risco de se transformar em discurso moral travestido de técnica. Em nome do cuidado, normaliza. Em nome da ajuda, simplifica. Em nome da eficácia, silencia a complexidade.

Não se trata de negar a experiência clínica, nem de reduzir o humano a números. Trata-se de reconhecer que experiência sem fundamento vira achismo, e achismo bem apresentado continua sendo achismo.

Levar a ciência a sério não é uma postura elitista. É uma exigência ética. É reconhecer que trabalhar com sofrimento exige mais do que boa intenção e boa escrita. Exige formação consistente, pensamento crítico e disposição para dizer “não sei” quando ainda não se sabe.

Em tempos de excesso de opinião, talvez o gesto mais responsável seja esse: recusar a confusão entre convicção e conhecimento. Porque ciência não é opinião bem escrita, e clínica não é lugar para improviso.

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“Você Não Precisa Superar”

Existe uma violência silenciosa disfarçada de conselho: a exigência de superação.
Ela costuma vir de quem já está cansado da dor do outro, não de quem realmente se importa com o que foi vivido.

“Você precisa superar” raramente significa cuidado.
Na maior parte das vezes, significa: “volte a funcionar”, “não fale mais disso”, “não nos constranja com o que ainda dói”.

A sociedade tolera o sofrimento apenas enquanto ele é breve, discreto e compreensível. Depois disso, ele passa a ser visto como insistência, fragilidade ou falta de maturidade emocional. O problema não é a dor, é o tempo que ela ocupa.

Famílias cobram normalidade.
Amigos pedem leveza.
Instituições exigem produtividade, estabilidade, equilíbrio.

Há pouco espaço para quem carrega marcas que não se resolvem rapidamente.

Superar virou uma obrigação moral. Um ideal quase higiênico: sentir, sofrer, chorar, mas apenas dentro de um prazo aceitável. Passado esse limite, o sofrimento se torna inconveniente, algo que deveria ter sido resolvido em silêncio.

Mas nem toda experiência pede superação.
Algumas pedem reconhecimento.
Outras pedem tempo.
E muitas pedem apenas o direito de existir sem serem constantemente empurradas para fora do campo do aceitável.

Traições, perdas, rupturas e violências não são obstáculos a serem ultrapassados como etapas de um manual de autoajuda. Elas reorganizam a vida. Alteram a forma como alguém confia, se vincula, se expõe. Exigir superação é exigir que essa transformação não tenha efeitos visíveis.

Há algo profundamente político nessa cobrança. Ela preserva a ordem, o conforto coletivo e a ilusão de normalidade. Quem sofre demais, por tempo demais, ameaça essa estabilidade. Por isso precisa “seguir em frente”.

Mas seguir em frente não é apagar.
Não é esquecer.
E não é voltar a ser quem se era antes.

Talvez o gesto mais radical seja recusar a pressa. Recusar a narrativa da cura obrigatória. Recusar a ideia de que toda dor precisa ser resolvida para ser aceita.

Você não precisa superar para merecer respeito.
Não precisa estar bem para ser considerado inteiro.
Não precisa fechar a ferida para seguir vivendo.

Algumas experiências não pedem superação.
Pedem que o mundo aprenda a conviver com quem foi atravessado por elas.

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Pensar Dá Trabalho (E Nem Todos Estão Dispostos)

Existe hoje uma estranha celebração da opinião. Opinar virou sinônimo de existir publicamente. Quanto menos elaborado o pensamento, maior a urgência de publicá-lo. Quanto mais frágil a base, maior a convicção com que se afirma.

Vivemos um tempo em que pessoas compartilham informações colhidas “em algum lugar”, retiradas de contexto, reduzidas a frases de efeito, e apresentadas como posicionamento político, moral ou intelectual, sem pudor, sem dúvida e, sobretudo, sem reflexão. A liberdade de expressão passou a ser confundida com a dispensa do pensamento.

Opinar não exige trabalho. Pensar, sim.

Pensar exige atravessar fontes, sustentar contradições, admitir ignorância provisória. Exige reconhecer que a realidade política, social e subjetiva é complexa demais para caber em posts apressados, indignações prontas ou certezas emocionais. Mas esse esforço parece excessivo para uma cultura que recompensa visibilidade, não consistência.

A opinião sem reflexão não é inofensiva. Ela produz ruído, reforça polarizações artificiais e transforma a complexidade do mundo em narrativas pobres, facilmente consumíveis. O problema não é discordar, é não ter com o que sustentar a discordância.

Quando qualquer informação pode ser publicada sem critério, o pensamento deixa de ser um processo e vira um gesto impulsivo. Publica-se para aliviar a própria angústia, para marcar posição, para pertencer a um grupo, não para compreender.

A psicologia, quando se cala diante disso, também participa do problema. Porque sabe, ou deveria saber, que agir sem reflexão não é liberdade; é repetição. Que expressar tudo o que se pensa, sem mediação, não é autenticidade; é acting out. Que a ausência de elaboração transforma opinião em descarga.

Há algo profundamente inquietante na facilidade com que se fala de política, sofrimento, ética e vida coletiva sem qualquer responsabilidade simbólica. Como se o simples fato de “ter uma opinião” já fosse suficiente para legitimá-la. Como se pensar fosse opcional.

Mas pensar nunca foi neutro, e nunca foi confortável. Pensar implica aceitar que talvez não saibamos o suficiente. Que talvez nossas certezas sejam frágeis. Que talvez aquilo que repetimos diga mais sobre nossos vínculos e medos do que sobre a realidade.

A recusa ao pensamento tem consequências. Ela empobrece o debate público, banaliza o sofrimento e transforma temas sérios em arenas de vaidade moral. A pressa em opinar substitui o compromisso de compreender.

Este texto não defende silêncio absoluto. Defende responsabilidade intelectual. Defende a ideia, hoje quase ofensiva, de que nem tudo o que pode ser dito deveria ser dito sem antes ser pensado.

Pensar dá trabalho porque exige freio.

Exige limite.

Exige a coragem de não publicar tudo.

E talvez o verdadeiro gesto político, neste tempo, seja justamente esse:
pensar antes de falar, e sustentar o silêncio quando o pensamento ainda não chegou.

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