Afunde a pá. Procure o diamante.
Talvez o problema não seja o vazio. Talvez seja a pressa com que tentamos preenchê-lo.
“Excava en tu hastío, hunde la pala, busca el diamante.”
A frase é de Fernando Aramburu, no texto Elogio del aburrimiento: “Escave o seu tédio, afunde a pá, procure o diamante.”
É uma frase pequena. Quase uma ordem.
Não fuja.
Não se distraia.
Não procure imediatamente alguma coisa que faça o incômodo desaparecer.
Cave.
Vivemos, no entanto, numa época que parece ter declarado guerra a qualquer intervalo.
Esperamos o elevador olhando para o celular. Comemos diante de uma tela. Caminhamos ouvindo alguma coisa. Assistimos a uma série enquanto respondemos mensagens. Se uma conversa demora a começar, buscamos o telefone. Se uma emoção incomoda, procuramos alguma coisa para fazer com ela, ou, mais precisamente, para não precisar ficar com ela.
Até o descanso precisa ser preenchido.
Talvez tenhamos desaprendido a suportar os espaços em branco.
E o curioso é que não fazemos isso apenas com o tédio.
Fazemos com a tristeza.
Com a ansiedade.
Com a solidão.
Com a frustração.
Com a dúvida.
Com o silêncio.
Sentimos alguma coisa desagradável e imediatamente perguntamos:
Como faço para isso passar?
É uma pergunta compreensível. Mas talvez não seja sempre a melhor pergunta.
Algumas experiências humanas não precisam desaparecer imediatamente. Precisam ser atravessadas.
Há uma diferença enorme entre sofrimento e incapacidade de suportar qualquer desconforto. Quando tratamos toda emoção desagradável como uma emergência, começamos a organizar a vida em torno da fuga.
E fugir funciona.
Esse é justamente o problema.
A distração alivia. A tela ocupa. A compra entusiasma. A comida conforta. O trabalho anestesia. A bebida silencia. A agenda lotada impede determinadas perguntas. Até cuidar compulsivamente dos outros pode ser uma maneira sofisticada de nunca precisar olhar para si.
Por alguns minutos, funciona.
E o cérebro aprende depressa aquilo que oferece alívio.
Na próxima vez em que o vazio aparecer, repetimos.
Depois repetimos outra vez.
Até que, sem perceber, podemos construir uma vida inteira dedicada a não sentir determinadas coisas.
Talvez seja por isso que a imagem de Aramburu seja tão bonita.
Ele não diz: livre-se do tédio.
Ele diz: cave.
Há alguma coisa profundamente contracultural nessa proposta.
Cavar exige permanecer.
Exige tolerar alguns minutos em que aparentemente nada acontece. Exige não receber recompensa imediata. Exige curiosidade diante daquilo que, à primeira vista, parece apenas desagradável.
E talvez seja justamente aí que esteja o diamante.
Não necessariamente uma grande revelação.
Às vezes, o diamante é uma ideia.
Às vezes, uma lembrança.
Às vezes, perceber que estamos cansados de uma vida que continuamos levando por hábito.
Às vezes, descobrir uma vontade que vinha sendo abafada pelo barulho.
Às vezes, simplesmente aprender uma coisa extraordinariamente difícil:
eu posso sentir isso sem precisar fugir.
Isso muda muita coisa.
Porque liberdade emocional não é viver apenas emoções agradáveis. É não precisar reorganizar o mundo inteiro cada vez que uma emoção desagradável aparece.
É poder sentir tristeza sem transformar a tristeza em catástrofe.
Sentir ansiedade sem obedecer automaticamente a ela.
Sentir tédio sem exigir entretenimento.
Sentir solidão sem aceitar qualquer companhia.
Sentir frustração sem destruir aquilo que não correspondeu às nossas expectativas.
Sentir vazio sem preenchê-lo com a primeira coisa disponível.
Existe uma espécie de riqueza psíquica que só aparece quando deixamos de exigir que cada minuto seja interessante, produtivo ou confortável.
O problema é que cavar dá trabalho.
E diamantes, por definição, não ficam na superfície.
Na superfície estão as notificações, os vídeos de quinze segundos, as respostas rápidas, as compras por impulso, as opiniões instantâneas, os conselhos em sete passos, as promessas de felicidade e toda uma indústria disposta a garantir que você jamais precise ficar sozinho com uma pergunta por tempo suficiente para descobrir a sua própria resposta.
O diamante está mais embaixo.
Talvez seja criatividade.
Talvez seja desejo.
Talvez seja uma decisão que estamos adiando.
Talvez seja apenas silêncio.
E talvez algumas pessoas cavem durante muito tempo e descubram algo ainda mais desconcertante:
que passaram anos tentando preencher uma falta que não precisava ser preenchida.
Precisava ser escutada.
Por isso, da próxima vez que aparecer aquele instante incômodo em que aparentemente não há nada para fazer, talvez não seja necessário correr tão depressa para encontrar alguma coisa.
Espere um pouco.
Deixe o celular onde está.
Não preencha imediatamente o silêncio.
Observe a vontade quase automática de escapar.
E, se conseguir, fique.
Afunde a pá.
Pode ser apenas tédio.
Mas pode haver um diamante lá embaixo.