Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Não me peçam devoção.

Tenho muitas críticas à esquerda. Incomoda-me sua frequente pretensão de superioridade moral, a dificuldade de reconhecer os próprios erros e a facilidade com que alguns de seus representantes relativizam aquilo que condenariam sem hesitar se viesse do adversário. Não me agradam os discursos de justiça que, por vezes, convivem tão confortavelmente com privilégios, incoerências e conveniências.

Da direita, tenho divergências ainda mais profundas em relação à maneira de compreender a sociedade. Incomoda-me a tendência de transformar desigualdades históricas em fracassos individuais, de tratar o mérito como se todos partissem do mesmo lugar e de confundir, tantas vezes, tradição com imobilismo, autoridade com autoritarismo e liberdade com indiferença ao sofrimento alheio.

Mas há algo que me incomoda de maneira particular, venha de onde vier: o fanatismo.

O bolsonarismo que transforma um homem em verdade absoluta e o lulismo que se recusa a enxergar qualquer contradição em seu líder me provocam uma profunda repulsa.

Não pela escolha eleitoral em si. Cada pessoa tem suas razões, sua história, suas convicções. Mas pela disposição de suspender o próprio julgamento para proteger alguém de qualquer crítica.

Tenho enorme dificuldade com pessoas que mudam seus princípios conforme muda o personagem envolvido. Que chamam de corrupção de um lado aquilo que, do outro, preferem chamar de equívoco. Que exigem respeito enquanto distribuem desprezo. Que defendem a democracia apenas quando ela lhes entrega o resultado desejado.

Isso não é convicção política. É devoção.

E devoção, quando entra na política, costuma deixar a inteligência do lado de fora.

Não acredito que esquerda e direita sejam iguais. Não são. Existem diferenças fundamentais entre seus projetos, seus valores e suas consequências. E essas diferenças importam muito para mim.

Mas também não acredito que uma causa justa santifique automaticamente quem a defende, nem que um político deva ser absolvido de suas contradições porque representa o campo com o qual simpatizamos.

Não preciso considerar todos iguais para me recusar a tratar qualquer um como infalível.

Nesta eleição, fiz minhas escolhas. Tenho razões para elas e não sinto necessidade de escondê-las. Também não espero que todos concordem comigo.

O que me espanta é perceber como algumas pessoas conseguem entregar a um político não apenas seu voto, mas também sua capacidade de duvidar.

Eu posso votar em alguém, defender um projeto e celebrar uma vitória. Posso, inclusive, sentir um enorme alívio com um resultado eleitoral.

Mas continuarei reservando para mim o direito de criticar quem ajudei a eleger.

Porque políticos devem receber votos, cobranças e, quando necessário, oposição.

Nunca adoração.

Minha consciência não está em disputa eleitoral. E minha inteligência não tem político de estimação.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

O dia seguinte.

Toda eleição produz dois sentimentos que raramente convivem bem: a alegria de uns e a frustração de outros. Hoje não é diferente.

Há quem acorde celebrando e há quem tenha acordado lamentando. E, curiosamente, amanhã todos continuaremos vivendo no mesmo país, enfrentando os mesmos problemas, pagando nossas contas, cuidando dos nossos afetos e tentando dar conta da própria existência.

Eu, particularmente, acordei aliviada.

Não porque acredite em salvadores da pátria. Já vivi o suficiente para saber que nenhum presidente vai me carregar no colo, resolver minhas contradições ou assumir a responsabilidade pela vida que me cabe construir.

Mas há uma diferença enorme entre não esperar milagres de um governante e considerar indiferente quem governa.

Meu alívio tem razões. Tem a ver com democracia, com o respeito às instituições, com a liberdade de pensar, com a dignidade humana e com a ideia de que um país não deve ser governado pela fabricação permanente de inimigos.

Sei que entre as pessoas que amo, admiro e respeito existem escolhas políticas muito diferentes das minhas. E não pretendo transformar cada encontro de família numa extensão da campanha eleitoral.

Mas também aprendi que respeitar pessoas não exige concordar com suas convicções. E que preservar a delicadeza não significa abdicar do pensamento crítico.

Não acho que todos os lados tenham sempre a mesma razão. Nem que todas as ideias mereçam o mesmo aplauso apenas em nome de uma convivência confortável.

Democracia não é a obrigação de pensar igual. É justamente a possibilidade de discordar sem destruir aquilo que nos permite continuar convivendo.

A vitória de ontem não resolveu os problemas do Brasil. Nenhuma vitória resolveria. Continuaremos tendo muito a cobrar, muito a vigiar e, sobretudo, muito a fazer.

Aos que estão tristes, desejo serenidade. Aos que estão felizes, desejo lucidez. Porque a arrogância dos vencedores pode ser tão desagradável quanto a incapacidade dos derrotados de aceitar um resultado.

Quanto a mim, seguirei fazendo o que sempre fiz: trabalhando, pensando, questionando e assumindo minhas próprias escolhas.

Só que hoje faço tudo isso com um pouco mais de alívio.

E sem a menor necessidade de disfarçá-lo para tornar minha posição mais confortável aos olhos dos outros.

Afinal, civilidade é uma escolha. Neutralidade, não necessariamente uma virtude.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

A democracia não absolve escolhas

Há derrotas políticas que doem porque perdemos.

E há outras que doem porque revelam.

Revelam prioridades.
Revelam valores.
Revelam aquilo que uma sociedade está disposta a relativizar quando acredita que o outro lado é pior.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da democracia: aceitar que o povo pode escolher, e escolher mal.

Democracia nunca significou que a maioria está certa.
Significa apenas que a maioria tem o direito de decidir.

E há uma diferença imensa entre essas duas coisas.

Urnas não conferem virtude.
Não transformam mentira em verdade, desprezo pela ciência em opinião legítima, intolerância em valor moral ou incompetência em estadismo.

Elas apenas contam votos.

Por isso, talvez a frase “o povo escolheu” seja muito mais perturbadora do que parece.

Porque, quando conhecemos a história, quando já vimos determinadas práticas, ouvimos determinados discursos e conhecemos determinadas consequências, fica mais difícil recorrer à inocência.

Não se pode dizer para sempre:
“não sabíamos”.

Em algum momento, sabíamos.

E escolhemos assim mesmo.

É tentador, diante disso, desejar que tudo dê errado apenas para poder dizer: “eu avisei”.

Mas não.

Eu não quero ter razão a esse preço.

Quero que as instituições resistam.
Que a ciência sobreviva.
Que as universidades permaneçam livres.
Que a imprensa possa incomodar.
Que nenhuma religião se transforme em projeto de Estado.
Que adversários continuem sendo adversários , e jamais inimigos a serem eliminados.
Que direitos não dependam da fé, da ideologia ou do sobrenome de quem ocupa o poder.

E, sobretudo, quero continuar acreditando que democracia é mais do que vencer uma eleição.

Porque uma maioria pode eleger um governo.

Mas não deveria receber, junto com a vitória, autorização para decidir quem merece menos liberdade, menos dignidade, menos voz ou menos país.

Talvez os próximos anos nos ensinem alguma coisa.

Espero sinceramente que eu esteja errada em muitos dos meus receios.

Porque certas previsões políticas são como diagnósticos ruins:

não há elegância alguma em acertá-las.

E, se um dia alguém perguntar como chegamos até aqui, talvez não possamos dizer que ninguém nos avisou.

Talvez tenhamos que responder algo muito mais desconfortável:

nós vimos.
nós ouvimos.
nós sabíamos.

E ainda assim, escolhemos.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

A mão que não veio

Há feridas provocadas por quem nos fez mal.

E há outras, talvez mais silenciosas, provocadas por quem não fez nada, justamente quando mais precisava fazer alguma coisa.

Durante muito tempo pensei que a gravidade de uma ferida fosse proporcional à gravidade do ato que a provocou. Que naturalmente seria mais difícil perdoar quem tivesse cometido o maior erro, causado o maior dano, atravessado o limite mais grave.

Mas a vida emocional não parece obedecer a uma contabilidade tão simples.

Às vezes, conseguimos perdoar alguém que participou de uma história terrível porque essa pessoa foi capaz de olhar para o que fez.

Reconheceu.

Não minimizou.

Não tentou reescrever os acontecimentos para parecer menos responsável.

Não exigiu que o outro se recuperasse depressa para aliviar sua própria culpa.

Permaneceu diante da dor que ajudou a causar.

E tentou reparar.

Enquanto isso, podemos guardar uma mágoa quase inexplicável de alguém que, tecnicamente, não nos fez nada.

Não provocou a tragédia.

Não causou a perda.

Não produziu a ferida.

Apenas não segurou nossa mão.

Mas deveria ter segurado.

É aí que mora uma forma particularmente dolorosa de invalidação.

Quando alguma coisa nos quebra, não precisamos apenas que reconheçam o acontecimento. Precisamos continuar sendo reconhecidos apesar dele.

Precisamos que alguém consiga separar aquilo que nos aconteceu daquilo que somos.

Porque uma das crueldades possíveis diante do sofrimento é transformar a experiência da vítima em alguma coisa que diminua seu valor.

Como se ter sido ferido nos tornasse menores.

Como se aquilo que fizeram conosco passasse a nos definir.

Como se a vergonha pudesse mudar de endereço e, em vez de permanecer com quem causou o dano, viesse morar em quem o sofreu.

Talvez por isso determinados abandonos sejam tão difíceis de esquecer.

Não sentimos apenas a ausência de uma pessoa.

Sentimos a ausência daquela pessoa naquele momento.

Da palavra que não veio.

Do abraço que não aconteceu.

Da defesa que esperávamos.

Do olhar que deveria ter dito: “Eu sei quem você é. E o que aconteceu com você não muda isso.”

Da mão que não veio.

Curiosamente, às vezes quem errou gravemente consegue percorrer um caminho que aquele que apenas abandonou nunca percorre.

Porque existe uma diferença enorme entre culpa e reparação.

Reparar não é dizer:

“Eu não tive intenção.”

Não é explicar interminavelmente os próprios motivos.

Não é pedir que o outro esqueça.

E muito menos transformar o pedido de perdão numa exigência de absolvição.

Reparar talvez comece quando alguém consegue permanecer diante da ferida e dizer:

Eu sei que aconteceu. Sei que doeu. Reconheço a minha parte nisso. E não preciso que você diminua sua dor para que eu consiga suportar a minha culpa.

Talvez seja por isso que o perdão seja tão pouco matemático.

Nem sempre perdoamos o menor erro e condenamos o maior.

Também levamos em conta o que aconteceu depois.

Quem reconheceu.

Quem permaneceu.

Quem tentou reparar.

Quem conseguiu continuar nos enxergando inteiros quando nós mesmos estávamos tentando juntar nossos pedaços.

E quem, no momento em que o mundo já havia sido suficientemente cruel, acrescentou abandono àquilo que já doía.

Existem perguntas que atravessam muitos anos.

Uma delas talvez seja particularmente difícil:

Onde você estava quando eu precisei que estivesse?

Porque algumas dores cicatrizam.

Algumas relações até conseguem nascer novamente sobre os escombros do que aconteceu.

Mas certas ausências permanecem.

Não pela distância.

Não pelo tempo.

Mas porque houve um instante em que tudo o que precisávamos era de uma mão estendida.

E ela não veio.

Talvez seja essa uma das formas mais profundas de reparação:

não apagar o que aconteceu,

mas ter coragem de permanecer diante daquilo que aconteceu.

E estender a mão.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Afunde a pá. Procure o diamante.

Talvez o problema não seja o vazio. Talvez seja a pressa com que tentamos preenchê-lo.

“Excava en tu hastío, hunde la pala, busca el diamante.”

A frase é de Fernando Aramburu, no texto Elogio del aburrimiento: “Escave o seu tédio, afunde a pá, procure o diamante.”

É uma frase pequena. Quase uma ordem.

Não fuja.
Não se distraia.
Não procure imediatamente alguma coisa que faça o incômodo desaparecer.

Cave.

Vivemos, no entanto, numa época que parece ter declarado guerra a qualquer intervalo.

Esperamos o elevador olhando para o celular. Comemos diante de uma tela. Caminhamos ouvindo alguma coisa. Assistimos a uma série enquanto respondemos mensagens. Se uma conversa demora a começar, buscamos o telefone. Se uma emoção incomoda, procuramos alguma coisa para fazer com ela, ou, mais precisamente, para não precisar ficar com ela.

Até o descanso precisa ser preenchido.

Talvez tenhamos desaprendido a suportar os espaços em branco.

E o curioso é que não fazemos isso apenas com o tédio.

Fazemos com a tristeza.
Com a ansiedade.
Com a solidão.
Com a frustração.
Com a dúvida.
Com o silêncio.

Sentimos alguma coisa desagradável e imediatamente perguntamos:

Como faço para isso passar?

É uma pergunta compreensível. Mas talvez não seja sempre a melhor pergunta.

Algumas experiências humanas não precisam desaparecer imediatamente. Precisam ser atravessadas.

Há uma diferença enorme entre sofrimento e incapacidade de suportar qualquer desconforto. Quando tratamos toda emoção desagradável como uma emergência, começamos a organizar a vida em torno da fuga.

E fugir funciona.

Esse é justamente o problema.

A distração alivia. A tela ocupa. A compra entusiasma. A comida conforta. O trabalho anestesia. A bebida silencia. A agenda lotada impede determinadas perguntas. Até cuidar compulsivamente dos outros pode ser uma maneira sofisticada de nunca precisar olhar para si.

Por alguns minutos, funciona.

E o cérebro aprende depressa aquilo que oferece alívio.

Na próxima vez em que o vazio aparecer, repetimos.

Depois repetimos outra vez.

Até que, sem perceber, podemos construir uma vida inteira dedicada a não sentir determinadas coisas.

Talvez seja por isso que a imagem de Aramburu seja tão bonita.

Ele não diz: livre-se do tédio.

Ele diz: cave.

Há alguma coisa profundamente contracultural nessa proposta.

Cavar exige permanecer.

Exige tolerar alguns minutos em que aparentemente nada acontece. Exige não receber recompensa imediata. Exige curiosidade diante daquilo que, à primeira vista, parece apenas desagradável.

E talvez seja justamente aí que esteja o diamante.

Não necessariamente uma grande revelação.

Às vezes, o diamante é uma ideia.

Às vezes, uma lembrança.

Às vezes, perceber que estamos cansados de uma vida que continuamos levando por hábito.

Às vezes, descobrir uma vontade que vinha sendo abafada pelo barulho.

Às vezes, simplesmente aprender uma coisa extraordinariamente difícil:

eu posso sentir isso sem precisar fugir.

Isso muda muita coisa.

Porque liberdade emocional não é viver apenas emoções agradáveis. É não precisar reorganizar o mundo inteiro cada vez que uma emoção desagradável aparece.

É poder sentir tristeza sem transformar a tristeza em catástrofe.

Sentir ansiedade sem obedecer automaticamente a ela.

Sentir tédio sem exigir entretenimento.

Sentir solidão sem aceitar qualquer companhia.

Sentir frustração sem destruir aquilo que não correspondeu às nossas expectativas.

Sentir vazio sem preenchê-lo com a primeira coisa disponível.

Existe uma espécie de riqueza psíquica que só aparece quando deixamos de exigir que cada minuto seja interessante, produtivo ou confortável.

O problema é que cavar dá trabalho.

E diamantes, por definição, não ficam na superfície.

Na superfície estão as notificações, os vídeos de quinze segundos, as respostas rápidas, as compras por impulso, as opiniões instantâneas, os conselhos em sete passos, as promessas de felicidade e toda uma indústria disposta a garantir que você jamais precise ficar sozinho com uma pergunta por tempo suficiente para descobrir a sua própria resposta.

O diamante está mais embaixo.

Talvez seja criatividade.

Talvez seja desejo.

Talvez seja uma decisão que estamos adiando.

Talvez seja apenas silêncio.

E talvez algumas pessoas cavem durante muito tempo e descubram algo ainda mais desconcertante:

que passaram anos tentando preencher uma falta que não precisava ser preenchida.

Precisava ser escutada.

Por isso, da próxima vez que aparecer aquele instante incômodo em que aparentemente não há nada para fazer, talvez não seja necessário correr tão depressa para encontrar alguma coisa.

Espere um pouco.

Deixe o celular onde está.

Não preencha imediatamente o silêncio.

Observe a vontade quase automática de escapar.

E, se conseguir, fique.

Afunde a pá.

Pode ser apenas tédio.

Mas pode haver um diamante lá embaixo.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

O laço que se faz por amor não se desfaz com ausência

Há vínculos que exigem presença: a conversa que precisa acontecer, o cuidado que precisa ser oferecido, a mão que precisa ser estendida quando alguém está caindo.

Mas há outros que, quando verdadeiramente tecidos pelo amor, sobrevivem à distância, ao silêncio e até ao tempo.

A ausência pode doer. Pode criar uma cadeira vazia à mesa, uma vontade repentina de contar uma novidade, uma saudade que se instala no corpo antes mesmo de encontrarmos palavras para ela. Pode nos fazer perguntar se o outro ainda se lembra, se ainda se importa, se o que vivemos teve para ele o mesmo peso que teve para nós.

Mas a ausência não apaga automaticamente aquilo que foi genuíno.

Nem todo amor continua sob a forma de convivência. Às vezes, ele permanece como referência; como uma frase que ainda orienta, um gesto que aprendemos a repetir, uma coragem que reconhecemos em nós porque alguém, um dia, acreditou que ela existia.

Há pessoas que já não estão perto, por escolha, por circunstância, por desencontros da vida ou porque a própria vida terminou e, ainda assim, continuam participando discretamente de quem nos tornamos.

Isso não significa romantizar o abandono. Amor não deveria ser usado para justificar descuido, negligência ou ausências repetidas que ferem. A presença importa. A responsabilidade afetiva importa. E há afastamentos que precisam ser chamados pelo nome que têm.

Mas, quando houve amor de verdade, ele não desaparece apenas porque a proximidade mudou.

Talvez amadurecer seja entender que alguns laços não precisam ser apertados o tempo todo para existir. Eles não pedem prova diária; pedem memória, reconhecimento e gratidão pelo que puderam construir em nós.

O laço que se faz por amor não se desfaz com ausência.

Ele pode mudar de forma. Pode deixar de ser abraço e virar lembrança. Pode deixar de ser conversa e virar ensinamento. Pode deixar de ser presença e virar raiz.

E raízes, mesmo quando não vemos, continuam sustentando.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

O silêncio repousa. O vazio encara você.

Há silêncios que acolhem.

Depois de uma conversa longa, de uma notícia difícil, de uma dor que finalmente encontrou palavra, o silêncio pode ser uma espécie de descanso. Ele não exige resposta. Apenas fica. Como quem se senta ao nosso lado sem a pretensão de resolver o que ainda não tem solução.

Mas existe outro silêncio.

Aquele que não repousa em nós; repousa ao redor.
E, quando tudo finalmente se cala, o vazio se aproxima. Não pede licença. Não oferece consolo. Apenas encara você.

É então que percebemos o quanto temos nos mantido ocupados para não escutar.

A agenda cheia. A mensagem respondida depressa. A tela acesa. O trabalho que transborda. A preocupação que se disfarça de responsabilidade. As relações que se mantêm em movimento, mesmo quando já não há encontro. Tudo aquilo que, de algum modo, nos poupa de ficar diante da pergunta que evitamos fazer.

O que é que está faltando?

Não uma falta qualquer. Mas aquela que não se resolve com uma compra, uma viagem, uma conquista ou uma nova tarefa na lista. A falta que persiste mesmo quando, aparentemente, não falta nada.

O vazio tem uma crueldade discreta: ele não grita. Não faz escândalo. Não pode ser facilmente culpado. Ele apenas nos devolve a nós mesmos, sem o barulho que costumamos usar para nos explicar.

E isso é profundamente desconfortável.

Porque, diante do vazio, pode aparecer a solidão que chamávamos de independência. Pode aparecer o luto que chamávamos de saudade. Pode aparecer o cansaço que chamávamos de produtividade. Pode aparecer a vida que estamos adiando enquanto nos ocupamos de sobreviver a ela.

Nem todo vazio precisa ser preenchido. Alguns precisam ser compreendidos.

Há ausências que pedem reparação. Há outras que pedem despedida. Há ainda aquelas que revelam que estivemos tentando receber, de fora, algo que só começará a existir quando pudermos nos aproximar de nós mesmos com menos pressa e menos julgamento.

O silêncio repousa.

Mas o vazio encara você.

E talvez seja justamente nesse olhar incômodo que alguma verdade, antes soterrada pelo excesso, começa a pedir passagem.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

AMANHÃ NÃO EXISTE

Talvez uma das frases mais desconcertantes que encontrei recentemente tenha vindo de uma reflexão do Sartre no livro de Albert Camus:

Não existe amanhã. O que existe é uma continuidade de presentes.

Li. Parei.

E pensei imediatamente em quantas pessoas passam boa parte da vida tentando resolver um dia que ainda não chegou.

Amanhã eu posso fracassar.
Amanhã alguma coisa pode acontecer.
Amanhã posso perder alguém.
Amanhã posso adoecer.
Amanhã talvez eu não dê conta.
Amanhã tudo pode dar errado.

Pode.

Esse é justamente o problema.

O futuro aceita qualquer tragédia que a nossa imaginação seja capaz de inventar.

E, como ele ainda não aconteceu, não oferece nenhuma evidência em sua própria defesa.

Talvez por isso seja tão fácil ter medo dele.

Na ansiedade, o amanhã deixa de ser apenas uma dimensão do tempo e se transforma numa espécie de território psicológico onde tentamos chegar antes da própria vida.

Ensaiamos conversas que nunca aconteceram.
Respondemos perguntas que ninguém fez.
Sofremos perdas que ainda não tivemos.
Procuramos soluções para problemas que talvez nunca existam.
Tentamos prever reações, controlar desfechos, evitar decepções, calcular riscos.

Tudo em nome de uma promessa silenciosa:

se eu pensar o suficiente sobre o amanhã, talvez ele não consiga me surpreender.

Mas consegue.

Porque preocupação não é previsão.

E controle não é segurança.

Há algo especialmente perverso na ansiedade: ela nos convence de que sofrer antecipadamente é uma forma de proteção.

Como se imaginar a queda pudesse amortecer o impacto.

Como se ensaiar a tragédia diminuísse a dor caso ela acontecesse.

Como se preocupar-se hoje fosse uma espécie de pedágio que pagamos para sofrer menos amanhã.

Não é.

O medo da catástrofe não impede a catástrofe.

Apenas permite que uma possibilidade ocupe, antecipadamente, o espaço de uma realidade.

E então acontece algo curioso: na tentativa de proteger o futuro, começamos a sacrificar o presente.

A pessoa está numa viagem, mas pensa na volta.

Está numa comemoração, mas pensa no que pode dar errado depois.

Recebe uma boa notícia e imediatamente procura a ameaça escondida dentro dela.

Ama alguém e já imagina a perda.

Conquista alguma coisa e começa a temer o momento em que poderá perdê-la.

É quase como se a felicidade precisasse ser vigiada.

Porque relaxar parece perigoso.

E talvez uma das frases mais tristes que a ansiedade sussurre seja:

“Não aproveite demais. Você não sabe o que vem depois.”

É verdade.

Não sabemos.

Mas há uma conclusão completamente diferente que poderia nascer exatamente da mesma constatação:

Aproveite. Você não sabe o que vem depois.

A incerteza que assusta também é a incerteza que permite.

Pode dar errado.

Mas pode não dar.

Pode terminar.

Mas pode durar muito mais do que imaginamos.

Pode haver perda.

Mas também pode haver encontro.

O problema é que a mente ansiosa costuma tratar possibilidades dolorosas como se fossem acontecimentos a caminho.

E possibilidades boas como se precisassem apresentar documentos.

Talvez por isso a ideia de que não existe amanhã me tenha provocado tanto.

Não porque o futuro seja irrelevante.

Planejar é necessário.
Antecipar algumas consequências é inteligência.
Preparar-se é cuidado.

Mas existe uma diferença imensa entre preparar o futuro e morar nele.

Podemos marcar uma consulta para terça-feira.

Podemos comprar uma passagem para dezembro.

Podemos fazer planos para os próximos dez anos.

Mas, quando terça-feira chegar, será presente.

Quando dezembro chegar, será presente.

Quando aquele futuro finalmente nos encontrar, ele terá perdido justamente aquilo que hoje tanto nos assusta:

terá deixado de ser futuro.

E talvez seja isso que esquecemos quando tentamos viver adiantados.

A vida nunca acontece amanhã.

A vida acontece sempre neste instante estreito em que alguma coisa está, de fato, acontecendo.

Depois vem outro.

E outro.

E outro.

Uma continuidade de presentes.

O amanhã pode ser planejado.

Pode ser desejado.

Pode ser temido.

Pode até ocupar a nossa agenda inteira.

Só não pode ser vivido.

E talvez a ansiedade cobre um preço alto demais por tentar fazer justamente isso.

Porque enquanto você tenta impedir que a vida doa amanhã,

ela está acontecendo hoje.

E existe uma perda para a qual talvez devêssemos olhar com mais cuidado:

não apenas a perda das coisas que um dia acabam,

mas a perda das coisas que estavam aqui

e das quais estivemos ausentes enquanto ainda existiam.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

O peso dos quase

Esta semana eu quase morri.

Escrever essa frase me parece exagerado.
Porque a palavra "quase" funciona como uma espécie de anestesia linguística.

Se eu dissesse que morri, todos compreenderiam a gravidade.

Mas eu não morri.

Eu quase morri.

E parece que o quase transforma uma tragédia em detalhe.

É curioso como tratamos os quase da vida.

Quase sofri um acidente.
Quase perdi meu filho.
Quase tive um infarto.
Quase pulei.
Quase fui embora.
Quase consegui.

O quase parece uma categoria menor da existência.
Uma nota de rodapé dos acontecimentos.

Mas quem viveu sabe que não é.

Porque às vezes o coração dispara exatamente da mesma forma.
O medo atravessa exatamente da mesma forma.
A despedida passa pela cabeça exatamente da mesma forma.

O corpo não entende gramática.

Ele não sabe a diferença entre o que aconteceu e o que quase aconteceu.

Há pessoas que carregam traumas de algo que nunca chegou a acontecer.
E isso não é exagero.
É humanidade.

O carro freou a tempo.
Mas durante anos você ainda reduz a velocidade naquele cruzamento.

O exame veio normal.
Mas existe uma noite inteira que você já passou imaginando quem seus filhos seriam sem você.

A pessoa não foi embora.
Mas você já conheceu o gosto da perda.

Talvez por isso os quase mereçam mais respeito.

Porque eles nos apresentam versões alternativas da nossa vida.

A vida que não vivemos.
A tragédia que não aconteceu.
A felicidade que escapou.
O amor que não começou.
A palavra que não foi dita.

Existe um cemitério silencioso de quase dentro de cada ser humano.

Quase médicos.
Quase casamentos.
Quase viagens.
Quase reconciliações.
Quase despedidas.

E talvez seja justamente por isso que os quase nos incomodem tanto.

Eles não terminam.

O que acontece vira história.

O que não acontece vira pergunta.

E perguntas costumam sobreviver por muito mais tempo do que respostas.

Esta semana eu quase morri.

E talvez a maior estranheza não tenha sido perceber que eu poderia não estar aqui.

Foi perceber como o mundo espera que a gente siga adiante rapidamente quando existe um "quase" na frase.

Mas alguns quase mudam tudo.

Mesmo quando nada aconteceu.

Ou talvez, justamente porque quase aconteceu.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

A difícil elegância de ser falível

Mas há verdades que incomodam demais para permanecerem em silêncio.

Vivemos em uma época curiosa e, de certo modo, exaustiva, em que a aparência de impecabilidade se tornou um valor quase moral. Não basta ser competente, é preciso parecer infalível. Não basta acertar, é preciso não errar jamais. Como se a ausência de falhas fosse o verdadeiro critério de valor humano.

Criamos, assim, um teatro silencioso.

Um palco onde todos performam acertos.
E, nos bastidores, escondem cuidadosamente os próprios erros.

Há algo de profundamente solitário nisso.

Porque, enquanto todos tentam sustentar a imagem de quem nunca falha, ninguém se sente verdadeiramente visto. Afinal, não se pode reconhecer no outro aquilo que ele insiste em esconder.

E talvez esteja aí uma das distorções mais sutis, e mais perigosas, do nosso tempo: não é o erro que nos ameaça, mas a exposição dele.

As pessoas, em geral, não têm medo de errar.
Têm medo de serem vistas errando.

Errar, em silêncio, ainda é tolerável.
Errar em público… ameaça a narrativa.

A imagem construída.
A identidade sustentada.
A ilusão de controle.

E, para proteger essa ilusão, nasce um personagem particularmente sedutor, e perigosamente rígido: o inquestionável.

Aquele que nunca se equivoca.
Que não hesita.
Que não revisa.
Que não pede desculpas.

Não porque atingiu um grau extraordinário de excelência, mas porque construiu uma armadura sofisticada o suficiente para não deixar suas falhas aparecerem.

Mas toda armadura tem um custo.

E, neste caso, o custo é alto: a perda da flexibilidade psíquica.

Quem não admite erro, não admite revisão.
Quem não admite revisão, não aprende.
E quem não aprende… inevitavelmente repete.

A repetição, nesse contexto, não é fruto de ignorância, mas de defesa.

É a tentativa contínua de preservar uma identidade que não pode ser ameaçada, nem mesmo pela realidade.

E é aqui que surge uma ironia delicada: não são os erros que afastam as pessoas.

É a incapacidade de reconhecê-los.

O erro, quando assumido, abre espaço para reparo.
Para reconexão.
Para crescimento.

A negação, ao contrário, endurece.

Ela interrompe o diálogo.
Rompe a confiança.
E instala uma distância sutil, mas profunda, entre as pessoas.

Porque, no fundo, confiar em alguém não é acreditar que ele nunca falha.

É saber que, quando falhar, será capaz de reconhecer, responsabilizar-se e, se possível, reparar.

A falibilidade, nesse sentido, não é um defeito a ser corrigido.
É uma condição a ser integrada.

Ela nos lembra dos nossos limites, mas também da nossa possibilidade de transformação. Nos impede de nos tornarmos rígidos demais, definitivos demais, distantes demais da experiência humana.

Assumir a própria falibilidade é um gesto raro.

E talvez por isso mesmo, elegante.

Não pela estética do erro, que, por si só, não tem nada de bonito, mas pela coragem que exige. Pela disposição de sustentar a própria imperfeição sem recorrer à máscara.

Há uma forma mais madura de dignidade que não se apoia na ausência de falhas, mas na capacidade de lidar com elas.

E isso muda tudo.

Porque, no fim, a conta chega.

Mas não para quem erra.

Erros são inevitáveis, e muitas vezes, transformadores.

A conta chega, sobretudo, para quem insiste em sustentar uma versão de si que não pode ser tocada pela realidade.

Para quem prefere a coerência da imagem à verdade da experiência.

Para quem escolhe parecer inteiro… ao custo de não poder ser humano.

E talvez seja justamente aí que reside a pergunta mais importante:

não “como evitar o erro?”
mas “quem eu me torno quando erro?”

Porque é nessa resposta, e não na ausência de falhas,
que se revela, de fato, o caráter.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

“Quando o Amor Responde em Outra Língua”

Nem todo desencontro é ausência de amor. Alguns são apenas falhas de tradução.

Há pessoas que dizem o afeto. Outras o executam. Algumas falam “eu te amo” com palavras, outras com gestos silenciosos. Um prato servido, um cuidado cotidiano, uma presença constante que não se anuncia.

O problema começa quando essas línguas não coincidem.

Quem aprendeu a amar pela palavra sofre quando ela não vem. Não porque duvide do vínculo, mas porque a ausência da resposta ecoa como vazio. Não ouvir o que se diz não anula o amor, mas produz um resto, algo que fica sem lugar, sem nome, sem acolhimento.

Curiosamente, não é a falta de amor que dói. É a assimetria.

Dói perceber que aquilo que para um é natural, dizer, nomear, afirmar, para o outro é excesso, constrangimento ou até brincadeira. O afeto, então, aparece travestido de humor, de silêncio ou de ação prática, enquanto a palavra fica suspensa no ar, sem retorno.

O tempo aprofunda esse descompasso. Com os anos, aprendemos quem o outro é, reconhecemos seus limites, compreendemos suas formas. Mas compreender não significa deixar de sentir. A maturidade explica, mas nem sempre consola.

Existe uma solidão específica em amar alguém que ama de outra forma. Não é abandono, nem traição, nem descuido. É um tipo de tristeza discreta, quase indizível, que aparece justamente quando tudo parece estar bem.

Talvez porque o amor, mesmo quando sólido, também precisa ser reconhecido na linguagem de quem o escuta.

Há relações que sobrevivem por décadas não porque são perfeitas, mas porque resistem ao desconforto. Porque aprendem a conviver com o que nunca será plenamente correspondido, não por falta de afeto, mas por diferença de expressão.

Ainda assim, há dias em que a palavra faz falta. Não como prova, mas como encontro.

E talvez amar também seja isso: aceitar que algumas respostas nunca virão como esperamos, sem que isso invalide tudo o que foi construído. Mas aceitar não elimina o direito de sentir. O silêncio pode ser compreendido, e ainda assim doer.

Porque mesmo quando o amor existe, ele nem sempre responde na mesma língua.


Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

As três maçãs que caem do céu

Meu pai era um homem muito sábio.
Daqueles que talvez nem soubessem o quanto ensinavam enquanto apenas contavam histórias.

Quando eu era criança, muitas noites terminavam com ele me narrando alguma história antes de dormir. E, no final, ele sempre encerrava da mesma maneira:

“Três maçãs caíram do céu. Uma para quem contou a história, outra para quem ouviu e outra para todo o resto do mundo.”

Eu não entendia aquilo.

Lembro de ficar intrigada pensando:
“Como assim uma maçã para todo o mundo? Como todo mundo vai dividir uma única maçã?”

Mas, ao mesmo tempo, havia algo naquela frase que me atravessava profundamente. Porque eu percebia que ela anunciava o fim. Era como um pequeno ritual dizendo: “a história terminou”.

E isso me incomodava.

Talvez porque as crianças ainda não saibam lidar muito bem com finais. Ou talvez porque algumas histórias criem dentro da gente a vontade de permanecer um pouco mais naquele lugar.

Esses dias, assistindo a um filme, ouvi exatamente a mesma frase sendo dita no final. Na mesma hora, senti um choque quase infantil. Fiquei emocionada, curiosa e completamente atravessada pela memória do meu pai.

Corri atrás do significado.

E descobri que essa é uma antiga forma de encerrar histórias em algumas tradições populares, especialmente na cultura armênia. Uma espécie de bênção simbólica oferecida ao narrador, ao ouvinte e à continuidade da vida.

Quando entendi isso, a frase ganhou ainda mais beleza dentro de mim.

Porque talvez ela fale justamente sobre aquilo que nos mantém vivos: as histórias que compartilhamos.

Uma maçã para quem narra.

Porque contar uma história nunca é um ato pequeno. Às vezes, narrar exige coragem. Exige revisitar dores, abrir memórias, organizar sentimentos confusos e transformá-los em algo que possa tocar outra pessoa. Quem conta oferece um pedaço de si. E talvez por isso receba uma maçã: como alimento, reconhecimento ou cuidado.

Quem narra também precisa ser nutrido.

Uma maçã para quem escuta.

Vivemos tempos em que muitas pessoas querem falar, mas poucas conseguem realmente ouvir. Escutar alguém profundamente é um gesto raro. É dizer, sem palavras: “sua existência encontrou espaço em mim”.

Nenhuma história existe sozinha. Toda narrativa precisa de abrigo. Precisa encontrar um coração disposto a acolhê-la. A maçã oferecida ao ouvinte parece lembrar que ouvir também transforma. Quem escuta com presença nunca sai igual de uma história verdadeira.

E a terceira maçã…

Aquela que eu não entendia quando criança.

Talvez ela nunca tenha sido sobre dividir uma fruta literal entre bilhões de pessoas. Talvez ela sempre tenha sido sobre aquilo que as histórias deixam no mundo depois que terminam.

Porque algumas histórias continuam vivendo dentro de nós.

Elas atravessam gerações. Aproximam pessoas. Consolam dores. Mantêm memórias acesas. Fazem com que alguém se sinta menos sozinho.

Talvez seja por isso que precisamos tanto das histórias.

Porque enquanto alguém conta, alguém escuta e alguém continua vivendo, nada termina completamente.

No fundo, talvez todos nós estejamos apenas tentando entregar nossas pequenas maçãs uns aos outros:
uma memória, uma palavra, um afeto, uma presença.

E talvez viver seja exatamente isso —
seguir alimentando o mundo com aquilo que um dia também nos alimentou.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Quando a confiança troca de lugar

Há algo curioso acontecendo, e, ao mesmo tempo, profundamente inquietante.

As pessoas estão desconfiando mais de veículos jornalísticos… do que de mensagens encaminhadas por amigos. Vocês já perceberam isto?

Dito assim, parece apenas uma mudança de comportamento.
Mas não é.

É uma mudança no lugar onde a verdade se ancora.

Durante décadas, a credibilidade esteve associada a processos: apuração, checagem, responsabilidade editorial. Não era perfeito, nunca foi, mas havia um compromisso explícito com o método.

Hoje, esse eixo se desloca.

A confiança deixa de estar no processo… e passa a estar na relação.

Não importa tanto como aquela informação foi produzida.
Importa quem me enviou.

Se veio de alguém próximo, de um grupo familiar, de uma pessoa com quem compartilho valores… aquilo ganha um estatuto de verdade que dispensa verificação.

E é aqui que a coisa fica interessante, e perigosa.

Porque vínculos não são critérios de verdade.
São critérios de conforto.

A informação que circula entre conhecidos não chega sozinha.
Ela vem carregada de afeto, de identificação, de pertencimento.
Ela confirma o que eu já penso, organiza o mundo de um jeito familiar, reduz a fricção.

O jornalismo, por outro lado, muitas vezes faz o oposto.
Contraria, tensiona, incomoda.

E, em um mundo emocionalmente saturado, o incômodo perde espaço para o acolhimento, mesmo que esse acolhimento venha travestido de desinformação.

Há ainda um outro elemento, mais silencioso.

As redes sociais criaram a ilusão de consenso.
Se muitas pessoas próximas compartilham a mesma ideia, aquilo parece verdade. Não porque foi verificado… mas porque foi repetido.

A repetição virou argumento.
E o grupo virou prova.

O problema não é apenas acreditar no que é falso.
É começar a desconfiar do que exige esforço para ser compreendido.

Porque a verdade, a mais próxima que conseguimos construir, costuma ser mais complexa, mais ambígua e, frequentemente, menos confortável do que gostaríamos.

E talvez seja esse o ponto mais delicado de todos:

Não estamos trocando informação confiável por informação duvidosa.
Estamos trocando critérios.

Saímos da lógica da evidência…
para a lógica da identificação.

E quando a identificação vale mais do que a evidência, a verdade deixa de ser algo que se investiga…
e passa a ser algo que se escolhe.

Com base em quem fala, não no que é dito.

Um brinde, então, a esse novo pacto silencioso.

Onde a confiança não é construída…
é sentida.

E, justamente por isso, raramente questionada.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Quando o Afeto Vira Suspeita

Estamos vivendo uma era curiosa:
as pessoas defendem saúde mental enquanto desaprendem intimidade humana.

Um abraço pode ser suspeito.
Uma mão no ombro pode ser interpretada como invasão.
Um gesto de cuidado pode virar relatório jurídico.

Claro: abusos existem.
E justamente porque existem, precisam ser combatidos com seriedade.

Mas existe uma diferença gigantesca entre violência e humanidade.
E talvez estejamos começando a perder essa distinção.

Em muitos lugares do mundo, especialmente na cultura latino-americana, o afeto não é apenas verbal. Ele é corporal. Está no abraço demorado, no toque que consola, no beijo no rosto, na proximidade que comunica: “você não está sozinho”.

Enquanto isso, em certos ambientes contemporâneos, principalmente corporativos, parece que o corpo humano virou uma ameaça ambulante. Tudo precisa ser calculado, esterilizado, documentado. Como se espontaneidade fosse um risco ético.

O paradoxo é fascinante:
nunca se falou tanto sobre conexão…
e nunca houve tanto medo do contato humano.

Talvez porque uma sociedade profundamente individualista precise transformar proximidade em perigo.
Porque pessoas emocionalmente desconectadas tendem a interpretar calor humano como invasão.
Porque, quando a confiança morre, sobra apenas vigilância.

Byung-Chul Han dizia que estamos deixando de ser uma sociedade disciplinar para nos tornarmos uma sociedade do cansaço e do controle emocional silencioso. Eu acrescentaria:
talvez estejamos nos tornando também uma sociedade da assepsia afetiva.

Tudo higienizado.
Tudo protocolado.
Tudo seguro.
Tudo frio.

E há algo profundamente triste nisso.

Uma civilização que desaprende o toque talvez esteja desaprendendo, aos poucos, a própria experiência de pertencimento humano.

O desafio não é abolir limites.
O desafio é não transformar toda ternura em suspeita.

Porque uma sociedade incapaz de distinguir afeto de ameaça inevitavelmente produzirá pessoas cada vez mais solitárias, defensivas e emocionalmente famintas.

 

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Gatunos não têm sete vidas

Há quem roube sem tocar em nada.

Não leva objetos.
Leva o que não volta.

Tempo.
Energia.
Confiança.

E faz isso sem pressa.
Sem alarde.
Quase sem ser percebido.

Não são os óbvios.
Não são os que arrombam.

São os que entram quando a porta está entreaberta, ou quando ninguém teve coragem de fechá-la.

Vivem de pequenos excessos.
De concessões acumuladas.
De espaços que não lhes pertenciam,
mas nunca lhes foram negados.

E há algo sofisticado nesse tipo de movimento:
eles raramente parecem errados o suficiente.

Atravessam… mas com justificativa.
Avançam… mas com naturalidade.
Tomam… mas sem parecer que tomaram.

E talvez por isso permaneçam.

Porque o que é claramente inaceitável,
a gente corta.

Mas o que é apenas desconfortável…
a gente tolera.

E é nesse intervalo,
entre o que fere e o que ainda é “administrável”,
que muitos se instalam.

Existe uma fantasia silenciosa de que isso pode durar.

De que há sempre mais uma chance.
Mais uma adaptação.
Mais uma tentativa de fazer caber.

Mas não há.

Não porque o outro vai mudar.
Mas porque há um limite estrutural em tudo que é sustentado à custa de si.

E esse limite, quando chega,
não é dramático.

É lúcido.

Ele não grita.
Não explica.
Não negocia.

Apenas retira o acesso.

E, nesse momento, uma verdade simples se impõe:

quem vive de atravessar
depende profundamente de quem permite.

Sem isso, não há espaço.
Não há palco.
Não há continuidade.

Por isso, não,
gatunos não têm sete vidas.

Têm, no máximo, o tempo que alguém leva
até finalmente decidir
não ser mais território disponível.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Não era sobre o abraço.

Não era sobre o abraço
Sobre aquilo que a gente cobra quando, na verdade, só queria ser ouvido.

Brigar por um abraço que não veio.
Por um “eu te amo” que não foi dito.

Parece pequeno.
Mas não é.

Hoje eu briguei com você.
Uma discussão com sentido… e totalmente sem sentido.

Porque, no fundo, não era sobre o abraço.
Nem sobre as palavras.

Era sobre o silêncio.

Sobre aquele lugar estranho onde a gente fala —
mas não se sente ouvido.

E então a gente exagera.
Estica.
Cobra.

Como se, ao aumentar o volume da exigência,
finalmente alguém fosse escutar o que está por trás dela.

Mas há uma crueldade sutil nisso:
exigir do outro mais do que ele pode dar
é, muitas vezes, uma forma desesperada
de tentar ser visto.

Não é sobre o outro.
É sobre o vazio que a gente tenta preencher com ele.

Simone de Beauvoir escreveu que “querer ser amado não é o mesmo que amar”.

E talvez exista algo ainda mais incômodo aqui:
querer ser amado do jeito exato que imaginamos
também não é amar.

É controle.
É medo.
É carência vestida de necessidade legítima.

A gente pede colo…
mas, às vezes, pede com as mãos fechadas.

E mãos fechadas não recebem.
Só exigem.

No fundo, a dor não é só o que o outro não deu.
É o quanto a gente ainda não aprendeu
a sustentar o que sente
sem transformar isso em cobrança.

Porque quando tudo vira exigência,
o amor deixa de ser encontro
e vira dívida.

E ninguém permanece inteiro,
onde só é possível dever.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Quando o limite não dito vira invasão

Há invasões que começam muito antes do outro atravessar.
Começam quando você ainda não ocupou o seu lugar.

Há um tipo de sofrimento que não vem do que o outro faz.
Vem do quanto você se molda para não desagradar.

É silencioso.
E, por isso mesmo, devastador.

Você tenta ser compreensiva.
Flexível.
“Madura”.

Engole pequenas coisas.
Depois maiores.
Depois inaceitáveis.

E tudo isso com uma esperança quase ingênua:
a de que o outro, em algum momento, perceba.

Não percebe.

Porque há uma verdade pouco confortável:
ninguém respeita um limite que nunca foi colocado.

E não… não é falta de sensibilidade do outro.
É excesso de silêncio seu.

Existe um tipo de invasão que não começa no outro.
Começa na ausência de um “não”.

E, quando esse “não” não existe,
o outro avança.

Opina.
Critica.
Atravessa.

Às vezes, com uma naturalidade assustadora.

Como quem acredita, legitimamente,
que tem esse direito.

E por que não acreditaria?
Nunca foi dito o contrário.

Mas o ponto mais duro não é esse.

O ponto mais duro é perceber
que, enquanto você tenta manter a paz,
vai se afastando de si.

Vai aceitando o que não deveria.
Vai tolerando o que fere.
Vai sorrindo onde já não há espaço para gentileza.

E, aos poucos, começa a se perguntar:
“Será que estou exagerando?”

Não.
Você só está sentindo tarde demais
o que começou a ignorar cedo demais.

Há também uma vaidade disfarçada nisso tudo:
a de acreditar que, se você for suficientemente paciente,
o outro vai mudar.

Não vai.

Pessoas não mudam porque você suporta.
Mudam, quando mudam, porque encontram limites.

Claros.
Firmes.
Sustentados.

Sem isso, o que você chama de tentativa de harmonia
o outro lê como permissão.

E então nasce um ciclo perverso:
você se cala para evitar conflito…
e o silêncio vira convite para mais invasão.

Até que um dia não é mais sobre o que o outro fez.
É sobre o quanto você se perdeu tentando caber.

Porque há um momento em que não se trata mais de ser gentil.
Se trata de ser leal a si.

E isso, inevitavelmente, desagrada alguém.

A pergunta é outra:

quanto de você ainda precisa ser atravessado
até que você finalmente decida
não ser mais?

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

As águas dos rios desaguam no mar.

Não há revolta nesse movimento. Não há hesitação. O rio não consulta mapas, não calcula probabilidades, não se angustia com o fim do caminho. Ele simplesmente flui.

Talvez haja algo profundamente sereno nisso.

Desde a nascente, o rio carrega um destino que não escolheu. Nasce pequeno, atravessa terras, encontra pedras, curvas, abismos. Em alguns trechos, corre impetuoso; em outros, quase adormece. Mas nunca se volta contra o próprio curso. Nunca declara guerra à gravidade. Nunca tenta subir a montanha que o viu nascer.

Ele aceita o movimento.

Nós, ao contrário, aprendemos cedo a resistir. Chamamos de força aquilo que é tensão. Chamamos de maturidade aquilo que é controle. Queremos prever as curvas, evitar as quedas, negociar com o tempo. Criamos calendários para domesticar o futuro e planos para proteger o presente. Como se a vida pudesse ser contida entre margens rígidas, como se o mar fosse opcional.

Mas há coisas que simplesmente são.

O tempo passa.
Os ciclos se fecham.
Os encontros mudam.
Os corpos envelhecem.
As fases terminam.

E talvez o sofrimento não esteja nos fatos em si, mas na nossa tentativa de interromper o fluxo.

A água nunca discute com a pedra. Apenas passa.

Não porque seja fraca, mas porque compreende algo que esquecemos: a rigidez se quebra; o fluxo permanece. A pedra resiste, mas é lentamente moldada. A água cede, mas nunca deixa de seguir. Ela contorna, infiltra-se, espera. E, sem violência, transforma.

Há uma sabedoria silenciosa nisso.

Fluir não é desistir. Não é passividade. É uma forma mais profunda de força, uma força que não se impõe, mas persiste. O rio não abandona o mar por encontrar obstáculos; ele apenas encontra outras formas de continuar sendo rio.

Talvez serenidade seja isso: não a ausência de desafios, mas a ausência de guerra interior contra o inevitável.

Quando entendemos que certas coisas não precisam ser combatidas, algo dentro de nós amolece. A tensão perde sentido. A ansiedade perde argumento. Não se trata de indiferença, mas de confiança, uma confiança semelhante à da água, que sabe que, cedo ou tarde, chegará ao mar.

E quando chega, não há drama.

O rio não morre no mar. Ele se amplia.

Talvez o que chamamos de fim seja apenas a última curva antes da vastidão. Talvez a serenidade esteja em aceitar que não precisamos controlar cada metro do percurso, basta seguir.

Fluir, afinal, não é perder-se.
É cumprir-se.


Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Tem guerras que começam com bombas.

Tem guerras que começam com bombas.
Outras começam com versões.

E, hoje, as mais eficientes…
cabem em um feed.

A guerra das narrativas digitais não pede autorização.
Ela se instala.
Te atravessa.
E, quando você percebe, já está defendendo um lado
como se tivesse chegado lá sozinho.

Mas não chegou.

Alguém editou o caminho.

Cortou contexto.
Selecionou imagens.
Ajustou palavras.
Escolheu o que você veria,
e, principalmente, o que você não veria.

Porque nenhuma guerra se sustenta só com fatos.
Ela precisa de enredo.

Heróis bem definidos.
Vilões inquestionáveis.
Causas “óbvias”.
Indignações prontas para consumo.

E você consome.

Acreditando que está se informando,
quando, na verdade, está sendo conduzido.

Não é sobre mentir descaradamente.
Isso é grosseiro demais.

É sobre enquadrar.
Repetir.
Saturar.

Até que uma versão pareça
não apenas plausível,
mas inevitável.

E é aqui que a coisa fica perigosa.

Porque o objetivo não é só convencer você.
É fazer você escolher.

Rápido.
Sem nuance.
Sem tempo para dúvida.

Porque dúvida atrasa engajamento.
E quem hesita… não viraliza.

Então você escolhe.

Compartilha.
Defende.
Ataca.

E, sem perceber, deixa de analisar a guerra…
para começar a participar dela.

Não no campo físico.
Mas no campo simbólico,
onde as guerras reais começam a ganhar permissão.

Sim, permissão.

Porque antes de qualquer violência acontecer,
alguém precisa garantir que ela pareça justificável.

E isso está sendo feito, todos os dias,
em escala industrial.

Com estética limpa.
Com trilha sonora envolvente.
Com cortes precisos o suficiente
para transformar tragédia em argumento.

O algoritmo não tem lado.
Mas ele tem preferência:

conflito, medo e raiva.

E ele entrega exatamente isso,
para quem estiver disposto a consumir sem resistência.

O resultado?

Pessoas cada vez mais certas.
Cada vez mais polarizadas.
Cada vez menos capazes de sustentar a complexidade
de qualquer realidade que não caiba em um story.

E o mais irônico?

Todo mundo acha que está pensando por conta própria.

Quando, na prática, está reagindo a um roteiro
que foi escrito para isso.

A pergunta não é mais “o que está acontecendo?”.
É: quem construiu a versão que você está defendendo
com tanta convicção?

Porque, no fim,
não são só as guerras que matam.

As narrativas que as tornam aceitáveis
começam muito antes.

E, hoje,
elas passam primeiro por você.

Leia mais
Êdela NICOLETTI Êdela NICOLETTI

Você não é sincero. Você é bem editado

Existe uma fantasia vaidosa de que somos sinceros.

Que, no fundo, somos “de verdade”.
Que, se alguém nos visse sem filtros, encontraria algo autêntico, íntegro… talvez até admirável.

Mas isso é só mais uma camada bem construída.

O homem não mente apenas para os outros.
Isso seria simples demais.

Ele mente, sobretudo, para sustentar a própria autoestima.

E faz isso com uma habilidade impressionante:
transforma mentira em narrativa,
e narrativa em identidade.

“Ser você mesmo” virou um ideal bonito,
e perigosamente conveniente.

Porque o “você mesmo” já foi editado.

Já passou por revisões silenciosas.
Já teve partes excluídas, outras suavizadas, algumas completamente reescritas.

Você não é quem você é.
Você é quem conseguiu tolerar ser.

O resto… foi empurrado para baixo do tapete da consciência.
Ou, se escapou, foi rapidamente reinterpretado até caber numa versão mais digerível.

Agora, experimente algo simples:

Retire a responsabilidade de sustentar essa versão.

Dê a si mesmo uma máscara.

Anonimato.
Ausência de consequência.
Nenhuma necessidade de parecer coerente.

E observe o que aparece.

Não o seu “verdadeiro eu”, isso ainda é uma fantasia romântica.
Mas algo mais cru:

Aquilo que você passa a vida tentando não parecer.

A inveja que você chama de crítica.
A raiva que você chama de posicionamento.
A indiferença que você chama de maturidade.

Sem a obrigação de ser quem você diz que é…
essas traduções deixam de ser necessárias.

E a linguagem muda.

Fica mais direta.
Mais rápida.
Mais incômoda.

A máscara não revela quem você é.

Ela revela o que você esconde para continuar acreditando que é uma boa pessoa.

Na clínica, isso aparece de forma elegante, o que, às vezes, é ainda mais perturbador.

O paciente não chega mentindo.
Ele chega organizado.

Convincente.
Coerente.
Profundamente comprometido com a própria versão.

Mas, em algum momento, um pequeno deslize, algo atravessa.

Uma frase dita rápido demais.
Uma contradição que não foi editada a tempo.
Um afeto que não combinava com o discurso.

E ali, por um segundo, a máscara aparece.

Não a máscara social.

A outra.

A que permite dizer sem precisar sustentar.

E o mais curioso?

Quase sempre vem acompanhada de um pedido silencioso para que aquilo não seja levado tão a sério.

Como se a verdade precisasse de um álibi para existir.

No fim, não é que você não seja sincero.

É que você só é sincero quando não precisa arcar com as consequências disso.

E talvez seja por isso que a maioria das pessoas passa a vida inteira defendendo a própria identidade com tanto empenho.

Leia mais