Todos notam os erros. Quase ninguém nota os acertos
Há algo estranho na forma como observamos as pessoas.
Os erros aparecem imediatamente.
Ganham comentários, análises, críticas, indignação.
Os acertos, não.
Eles acontecem em silêncio.
Passam despercebidos.
São absorvidos como se fossem obrigação.
Uma falha se torna assunto.
Um acerto vira paisagem.
E isso revela algo inquietante sobre nós.
Parece que vivemos atentos ao que dá errado, mas quase cegos para o que funciona.
Alguém pode fazer cem coisas certas ao longo de meses, agir com cuidado, responsabilidade, ética, dedicação.
Mas basta um erro, uma falha, um deslize… e, de repente, tudo passa a ser reinterpretado à luz daquele único momento.
É como se o erro tivesse o poder de reescrever toda a história anterior.
Esse fenômeno não acontece apenas nas relações pessoais.
Ele aparece no trabalho, nas redes sociais, na política, nas instituições, e até dentro da nossa própria mente.
Somos rápidos para registrar a falha.
Mas lentos, ou incapazes, de reconhecer a constância silenciosa dos acertos.
Talvez porque o erro seja dramático.
Ele chama atenção, provoca reação, alimenta conversas.
O acerto, ao contrário, costuma ser discreto.
Ele apenas faz as coisas funcionarem.
E aquilo que funciona raramente vira notícia.
Mas há um efeito colateral nisso.
Ambientes onde só os erros são percebidos se tornam lugares de medo.
Relações em que apenas as falhas são lembradas se tornam relações injustas.
E pessoas que crescem ouvindo apenas críticas acabam acreditando que tudo o que fazem de certo simplesmente não conta.
No fundo, talvez o problema não seja apenas o erro.
Talvez o problema seja a nossa incapacidade de enxergar o que está dando certo.
Porque quando os acertos deixam de ser vistos, reconhecidos ou lembrados, algo fundamental se perde: a sensação de que vale a pena continuar tentando fazer as coisas bem.
E então surge uma pergunta desconfortável:
Quantas pessoas ao nosso redor estão sendo julgadas por um erro…
enquanto carregam uma história inteira de acertos que ninguém se deu ao trabalho de notar?