A Solidão Que Aprende a Falar Conosco

Quem não encontrou a própria história, ou a perdeu em algum trecho do caminho, inevitavelmente sente solidão. Não aquela solidão óbvia, de estar sozinho em um quarto vazio, mas a mais silenciosa de todas: a de não se reconhecer na própria vida.

Às vezes, ser solitário significa ser herói na história de todo mundo e apenas figurante na sua. Você sustenta, acolhe, resolve, aparece quando precisa. Mas quando olha para dentro, não encontra um enredo que pareça seu. Ainda assim, a verdadeira solidão não é estar só, é acreditar que você não é capaz de ter uma história.

Cada laço que deixamos de construir se transforma em mais um obstáculo invisível. Dizemos que não sabemos lidar com vínculos, com afetos, com pessoas. Mas essa desculpa nunca foi suficiente. Os muros que levantamos para nos proteger acabam caindo sobre nós mesmos. E, quando caem, não machucam apenas o corpo, esmagam a esperança.

Talvez estejamos solitários por causa dos nossos erros. Ou talvez cometamos tantos erros porque estamos solitários. Um alimenta o outro. Cada passo em falso convida mais uma solidão para morar conosco. E, dentro de casa, nos vemos repetidas vezes diante de um espelho quebrado.

Esse espelho não está apenas partido, ele confronta. Ele mostra o que fizemos, o que evitamos, o que ferimos. Não há como fugir dele. É como se dissesse, em silêncio: “Antes de seguir, lide com isso.” Com o que doeu. Com o que faltou. Com o que você se tornou tentando sobreviver.

Em alguns momentos, a solidão não nasce em nós. Ela é herdada. Vem de antes. Vem dos nossos pais, das ausências que eles também carregavam. Às vezes, ao olhar nos olhos de alguém, vemos o ressentimento de uma criança que cresceu sem apoio, sem colo, sem permissão para ser frágil. E essa criança continua ali, esperando.

Como sair disso?

Talvez abraçando essa criança quando ninguém mais quis abraçar. Talvez escolhendo não desistir, mesmo quando tudo em nós pede fuga. Talvez parando de desacreditar no próprio milagre, porque, sim, continuar existindo apesar de tudo já é um.

A solidão não precisa ser o fim da história. Ela pode ser o ponto em que finalmente começamos a escrevê-la. Com mãos trêmulas, mas verdadeiras. Com cicatrizes, mas com coragem. E, pela primeira vez, como protagonistas.

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