4. Quando o outro vira ameaça

Vivemos um tempo em que discordar deixou de ser apenas uma diferença de opinião e passou a ser uma ameaça existencial. A polarização contemporânea não se limita ao campo político; ela se infiltra nas relações pessoais, no debate moral, nas identidades e até nas formas de interpretar a realidade. O outro, aquele que pensa diferente, já não é apenas alguém com quem dialogamos, é alguém de quem precisamos nos defender.

Esse fenômeno revela algo mais profundo do que divergência ideológica. Ele aponta para uma fragilidade na forma como lidamos com a alteridade. Em vez de reconhecer o outro como alguém que compartilha da mesma condição humana, passamos a vê-lo como erro, perigo ou inimigo simbólico. A diferença deixa de ser um espaço de encontro e se transforma em fronteira.

A filosofia clássica oferece uma chave importante para compreender esse movimento. Para Aristóteles, o ser humano é, por natureza, um ser político, não no sentido partidário, mas no sentido relacional. A vida ética só se realiza na convivência com o outro, especialmente com aquele que não coincide plenamente conosco. Quando o diálogo se rompe, não é apenas a política que adoece, mas a própria experiência humana.

O que vemos hoje, no entanto, é a substituição do diálogo pela reafirmação identitária. Em um ambiente marcado por excesso de informação e escassez de escuta, as opiniões passam a funcionar como extensões do ego. Discordar deixa de ser uma troca de argumentos e passa a ser vivido como ataque pessoal. Defender uma ideia torna-se equivalente a defender a própria existência.

As redes sociais amplificam esse processo ao favorecer respostas rápidas, “certezas absolutas” e posicionamentos performáticos. O pensamento perde nuance; a dúvida vira fraqueza; a complexidade, suspeita. Em vez de perguntar o que posso aprender com isso?, passamos a perguntar em qual lado isso me coloca?. O mundo se organiza em campos opostos, e a realidade é forçada a caber em categorias rígidas.

Esse empobrecimento do pensamento tem consequências éticas sérias. Quando o outro é reduzido a rótulo, sua humanidade se torna secundária. A escuta deixa de ser necessária, porque já acreditamos saber quem ele é. O conflito deixa de ser oportunidade de compreensão e passa a ser prova de incompatibilidade. A polarização, nesse sentido, não é apenas discordância; é recusa do encontro.

Pensadoras como Hannah Arendt alertaram para os riscos de um mundo em que o pensamento crítico é substituído por adesões automáticas a narrativas prontas. Quando deixamos de pensar com o outro, passamos a pensar contra ele e, nesse processo, abrimos mão da responsabilidade que acompanha o julgamento ético. O pensamento, que deveria ampliar o mundo, passa a reduzi-lo.

É importante notar que a polarização não nasce apenas do ódio, mas também do medo. Medo de perder identidade, pertencimento, sentido. Em um mundo instável, as certezas rígidas oferecem abrigo psicológico. O problema é que esse abrigo cobra um preço alto: a exclusão do outro e, muitas vezes, a mutilação da própria capacidade de pensar.

Reconhecer a igualdade essencial, aqui, é um gesto radical. Significa lembrar que, antes de qualquer posição, o outro compartilha da mesma condição finita, vulnerável e inacabada. Significa aceitar que ninguém esgota a verdade e que o pensamento se fortalece no confronto respeitoso com o diferente. A alteridade não ameaça a identidade; ela a amadurece.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja escolher o lado certo, mas sustentar o espaço do entre, o espaço onde a escuta ainda é possível, onde a discordância não destrói o vínculo e onde o outro não precisa ser eliminado simbolicamente para que eu exista. Em um mundo que se organiza cada vez mais por oposições, preservar a capacidade de diálogo pode ser um dos últimos gestos verdadeiramente éticos

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3. Quando existir parece improdutivo