A democracia não absolve escolhas
Há derrotas políticas que doem porque perdemos.
E há outras que doem porque revelam.
Revelam prioridades.
Revelam valores.
Revelam aquilo que uma sociedade está disposta a relativizar quando acredita que o outro lado é pior.
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da democracia: aceitar que o povo pode escolher, e escolher mal.
Democracia nunca significou que a maioria está certa.
Significa apenas que a maioria tem o direito de decidir.
E há uma diferença imensa entre essas duas coisas.
Urnas não conferem virtude.
Não transformam mentira em verdade, desprezo pela ciência em opinião legítima, intolerância em valor moral ou incompetência em estadismo.
Elas apenas contam votos.
Por isso, talvez a frase “o povo escolheu” seja muito mais perturbadora do que parece.
Porque, quando conhecemos a história, quando já vimos determinadas práticas, ouvimos determinados discursos e conhecemos determinadas consequências, fica mais difícil recorrer à inocência.
Não se pode dizer para sempre:
“não sabíamos”.
Em algum momento, sabíamos.
E escolhemos assim mesmo.
É tentador, diante disso, desejar que tudo dê errado apenas para poder dizer: “eu avisei”.
Mas não.
Eu não quero ter razão a esse preço.
Quero que as instituições resistam.
Que a ciência sobreviva.
Que as universidades permaneçam livres.
Que a imprensa possa incomodar.
Que nenhuma religião se transforme em projeto de Estado.
Que adversários continuem sendo adversários , e jamais inimigos a serem eliminados.
Que direitos não dependam da fé, da ideologia ou do sobrenome de quem ocupa o poder.
E, sobretudo, quero continuar acreditando que democracia é mais do que vencer uma eleição.
Porque uma maioria pode eleger um governo.
Mas não deveria receber, junto com a vitória, autorização para decidir quem merece menos liberdade, menos dignidade, menos voz ou menos país.
Talvez os próximos anos nos ensinem alguma coisa.
Espero sinceramente que eu esteja errada em muitos dos meus receios.
Porque certas previsões políticas são como diagnósticos ruins:
não há elegância alguma em acertá-las.
E, se um dia alguém perguntar como chegamos até aqui, talvez não possamos dizer que ninguém nos avisou.
Talvez tenhamos que responder algo muito mais desconfortável:
nós vimos.
nós ouvimos.
nós sabíamos.
E ainda assim, escolhemos.