O dia seguinte.
Toda eleição produz dois sentimentos que raramente convivem bem: a alegria de uns e a frustração de outros. Hoje não é diferente.
Há quem acorde celebrando e há quem tenha acordado lamentando. E, curiosamente, amanhã todos continuaremos vivendo no mesmo país, enfrentando os mesmos problemas, pagando nossas contas, cuidando dos nossos afetos e tentando dar conta da própria existência.
Eu, particularmente, acordei aliviada.
Não porque acredite em salvadores da pátria. Já vivi o suficiente para saber que nenhum presidente vai me carregar no colo, resolver minhas contradições ou assumir a responsabilidade pela vida que me cabe construir.
Mas há uma diferença enorme entre não esperar milagres de um governante e considerar indiferente quem governa.
Meu alívio tem razões. Tem a ver com democracia, com o respeito às instituições, com a liberdade de pensar, com a dignidade humana e com a ideia de que um país não deve ser governado pela fabricação permanente de inimigos.
Sei que entre as pessoas que amo, admiro e respeito existem escolhas políticas muito diferentes das minhas. E não pretendo transformar cada encontro de família numa extensão da campanha eleitoral.
Mas também aprendi que respeitar pessoas não exige concordar com suas convicções. E que preservar a delicadeza não significa abdicar do pensamento crítico.
Não acho que todos os lados tenham sempre a mesma razão. Nem que todas as ideias mereçam o mesmo aplauso apenas em nome de uma convivência confortável.
Democracia não é a obrigação de pensar igual. É justamente a possibilidade de discordar sem destruir aquilo que nos permite continuar convivendo.
A vitória de ontem não resolveu os problemas do Brasil. Nenhuma vitória resolveria. Continuaremos tendo muito a cobrar, muito a vigiar e, sobretudo, muito a fazer.
Aos que estão tristes, desejo serenidade. Aos que estão felizes, desejo lucidez. Porque a arrogância dos vencedores pode ser tão desagradável quanto a incapacidade dos derrotados de aceitar um resultado.
Quanto a mim, seguirei fazendo o que sempre fiz: trabalhando, pensando, questionando e assumindo minhas próprias escolhas.
Só que hoje faço tudo isso com um pouco mais de alívio.
E sem a menor necessidade de disfarçá-lo para tornar minha posição mais confortável aos olhos dos outros.
Afinal, civilidade é uma escolha. Neutralidade, não necessariamente uma virtude.