A história não começa quando nos convém

Há uma forma particularmente confortável de interpretar a história: escolher o momento em que ela deve começar.

É um recurso extraordinário. Basta estabelecer um marco conveniente, ignorar tudo o que aconteceu antes dele e, de repente, encontramos os responsáveis por todas as mazelas de uma nação.

A pobreza? Culpa deles.

A desigualdade? Também.

A corrupção, a precariedade da educação, os problemas da saúde pública, a violência, o atraso econômico e as injustiças sociais?

Tudo parece ter surgido nas últimas duas décadas.

Confesso que essa capacidade de simplificação me impressiona. Sobretudo quando exercida por pessoas que se apresentam como defensoras da história, da tradição, da família, da ordem e dos bons costumes.

Mas talvez fosse interessante abrir alguns livros antes de distribuir responsabilidades.

O Brasil conviveu com a escravidão por mais de três séculos. Foram gerações inteiras submetidas a um sistema no qual seres humanos eram tratados como propriedade, enquanto a riqueza, a terra e o poder se concentravam nas mãos de poucos.

Em 1888, abolimos juridicamente a escravidão. Mas não distribuímos terras, não asseguramos educação, não construímos mecanismos suficientes de integração e reparação para a população que havia sido escravizada.

A liberdade foi proclamada. A desigualdade permaneceu.

Depois vieram décadas de uma República dominada por oligarquias, nas quais a participação política e o acesso efetivo ao poder estavam longe de representar a maioria da população.

Tivemos períodos autoritários, restrições às liberdades e, entre 1964 e 1985, outros 21 anos sob uma ditadura militar.

Vinte e um anos.

Tempo suficiente para formar uma geração inteira.

Durante esse período, houve projetos econômicos, decisões políticas, investimentos, omissões, crescimento em determinados momentos, crises em outros, concentração de renda, endividamento e repressão.

Depois veio a redemocratização. E, com ela, diferentes presidentes, diferentes partidos, diferentes promessas e diferentes resultados.

Mas, curiosamente, em algumas narrativas contemporâneas, toda essa longa trajetória parece desaparecer.

Como se o país tivesse sido inaugurado há pouco mais de vinte anos.

Como se a desigualdade brasileira fosse uma invenção recente.

Como se a concentração de riqueza não tivesse raízes profundas.

Como se nossas instituições, nossas relações de poder e nossas estruturas sociais não carregassem marcas de séculos.

E, sobretudo, como se todos aqueles que exerceram o poder antes desse recorte histórico estivessem automaticamente absolvidos de qualquer responsabilidade.

Que extraordinária generosidade retrospectiva.

Não estou sugerindo que governos recentes devam ser poupados de críticas. Muito pelo contrário.

Governos precisam responder por suas escolhas, por seus erros, por suas omissões e por suas consequências. Todos eles. Sem exceção.

Mas existe uma diferença fundamental entre responsabilizar e selecionar culpados.

A primeira atitude exige evidências, análise e compromisso com a realidade.

A segunda exige apenas preferência.

E é justamente aí que a incoerência se torna mais evidente.

Há quem investigue com entusiasmo cada falha daqueles de quem discorda, mas encontre explicações surpreendentemente compreensivas para os erros daqueles com quem se identifica.

A corrupção muda de gravidade conforme o autor.

O autoritarismo muda de nome conforme a conveniência.

A incompetência se transforma em circunstância quando pertence aos nossos e em defeito moral quando pertence aos outros.

E a história, que deveria nos ajudar a compreender a complexidade do presente, acaba reduzida a um instrumento de acusação seletiva.

Talvez seja essa uma das maiores dificuldades do debate público brasileiro: confundimos convicção com conhecimento e fidelidade ideológica com honestidade intelectual.

Não precisamos concordar sobre as soluções para o país. Podemos divergir profundamente sobre economia, políticas sociais, segurança pública, tamanho do Estado e prioridades de governo.

Essa divergência faz parte da democracia.

O que não deveríamos fazer é modificar o passado para acomodar nossas preferências no presente.

Porque reconhecer os erros de um governo não significa absolver os anteriores. E reconhecer as responsabilidades históricas dos anteriores não significa desculpar os atuais.

A coerência começa quando somos capazes de aplicar aos nossos aliados os mesmos critérios que utilizamos para julgar nossos adversários.

Talvez, antes de perguntar quem destruiu o Brasil nos últimos vinte anos, devêssemos perguntar quem o construiu dessa maneira ao longo de mais de quinhentos.

Quem teve acesso à terra?

Quem teve direito à educação?

Quem acumulou riqueza?

Quem formulou as leis?

Quem exerceu o poder?

Quem foi sistematicamente deixado de fora?

E quem continua se beneficiando de estruturas que atravessaram governos, regimes e gerações?

São perguntas menos confortáveis. Talvez por isso sejam tão pouco frequentes em determinados discursos.

Afinal, examinar apenas o passado recente permite encontrar culpados sem necessariamente confrontar privilégios históricos.

E essa é uma comodidade intelectual muito sedutora.

No fundo, não me incomoda que alguém tenha uma posição política diferente da minha. Incomoda-me a facilidade com que tantas pessoas reivindicam rigor para julgar os outros e indulgência para julgar aquilo que defendem.

Não precisamos de uma sociedade em que todos pensem da mesma forma.

Precisamos de uma sociedade em que a honestidade intelectual não dependa de quem está sendo examinado.

Porque, quando a memória histórica passa a funcionar apenas contra nossos adversários, deixa de ser instrumento de compreensão e se transforma em instrumento de conveniência.

E talvez a maior incoerência não esteja em interpretar a história de maneiras diferentes.

Esteja em exigir que os outros respondam por vinte anos, enquanto concedemos silêncio e absolvição a séculos inteiros.

Êdela Nicoletti

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