#A LISTA DOS INDESEJÁVEIS

Quando a intolerância veste roupa de civismo

Hoje recebi uma lista.

Não era uma lista de criminosos, de empresas condenadas por corrupção, de comerciantes envolvidos em fraudes ou de estabelecimentos que violaram direitos de seus trabalhadores.

Era uma lista de empresários e comerciantes dos quais, segundo seus autores, não deveríamos mais comprar produtos ou contratar serviços.

O motivo?

Supostamente, votaram em Lula.

Sim. Supostamente.

Porque, ao que parece, chegamos a um estágio particularmente sofisticado da estupidez coletiva: já não precisamos conhecer os fatos para condenar alguém. Basta uma suspeita, uma interpretação conveniente ou a convicção de algum autoproclamado guardião da moralidade política.

E a lista vinha acompanhada de uma premissa ainda mais reveladora: nós, integrantes de uma classe economicamente privilegiada, deveríamos nos reconhecer como eleitores do candidato bolsonarista e, consequentemente, exercer nosso poder de consumo para punir os supostos dissidentes.

Que extraordinária demonstração de arrogância.

Agora, além de presumirem o voto dos comerciantes, presumem também o nosso.

Aparentemente, possuir recursos financeiros passou a significar pertencer a uma determinada corrente política. Como se renda determinasse consciência. Como se patrimônio fosse sinônimo de ideologia. Como se a capacidade de consumir concedesse a alguém o direito de disciplinar politicamente quem precisa vender.

Há algo de profundamente covarde nessa lógica.

Porque não estamos falando de um debate público, de divergências legítimas ou de críticas fundamentadas às práticas de uma empresa.

Estamos falando da tentativa de transformar suspeitas sobre escolhas políticas individuais em instrumentos de punição econômica.

E isso tem história.

As listas negras atravessaram diferentes períodos históricos. Durante o macarthismo, nos Estados Unidos, suspeitas de associação ideológica foram suficientes para comprometer carreiras, destruir reputações e excluir profissionais de seus espaços de trabalho.

O mecanismo era perversamente simples: primeiro, identificava-se o suspeito. Depois, promovia-se sua exclusão. A comprovação, quando existia, tornava-se quase um detalhe.

Não estou equiparando os acontecimentos nem suas consequências históricas. Estou chamando atenção para um mecanismo que merece ser reconhecido: a transformação da divergência política em justificativa para a exclusão social e econômica.

E a história nos ensinou, repetidas vezes, que esse mecanismo não costuma produzir sociedades mais livres.

Produz sociedades mais amedrontadas.

Há, naturalmente, uma diferença entre decidir conscientemente onde gastar o próprio dinheiro e organizar uma campanha de constrangimento contra pessoas identificadas por suas supostas convicções políticas.

O consumidor tem liberdade de escolha.

Mas liberdade de escolha não transforma boatos em fatos, nem confere respeitabilidade à perseguição.

O mais impressionante é que muitos dos que defendem iniciativas dessa natureza provavelmente se apresentam como defensores intransigentes da liberdade.

Da liberdade de expressão.

Da liberdade econômica.

Da liberdade individual.

Desde que a expressão seja a deles, a economia favoreça seus interesses e a liberdade individual não inclua o direito de discordar.

Uma concepção bastante peculiar de democracia.

E há outro aspecto que me causa especial indignação.

A facilidade com que pessoas socialmente privilegiadas parecem dispostas a utilizar seu poder econômico para intimidar quem depende da atividade comercial para sustentar uma empresa, pagar salários, manter empregos e sobreviver.

É preciso uma dose considerável de presunção para imaginar que a própria posição social autoriza alguém a distribuir certificados de aceitabilidade política.

E uma dose ainda maior de covardia para fazer isso amparado em suposições.

Nossa Constituição não foi escrita para proteger apenas aqueles com quem concordamos. O pluralismo político é um de seus fundamentos. O voto é secreto. A liberdade de convicção política é uma garantia constitucional.

Não são concessões de um grupo social a outro.

São direitos.

E direitos que só reconhecemos aos nossos semelhantes ideológicos deixam de ser direitos para se tornarem privilégios.

Talvez o que mais me perturbe nessa lista não seja sequer sua intenção de boicote.

É a naturalidade com que alguém a elaborou, a compartilhou e aparentemente acreditou estar praticando algum gesto de virtude cívica.

Como se a crueldade, quando compartilhada entre pessoas que pensam da mesma maneira, adquirisse automaticamente uma aparência de legitimidade.

Como se a intolerância se tornasse respeitável quando praticada por gente bem-vestida, bem-sucedida e economicamente confortável.

Não se torna.

A intolerância não ganha nobreza porque frequenta bons restaurantes, mora em bons endereços ou circula em grupos socialmente prestigiados.

Continua sendo intolerância.

E, quando acompanhada da pretensão de decidir quem merece prosperar economicamente com base em suas supostas escolhas eleitorais, revela algo ainda mais inquietante: a dificuldade de aceitar que outras pessoas tenham exatamente os mesmos direitos que reivindicamos para nós.

Não pretendo participar dessa lista.

Não pretendo investigar o voto de quem me vende pão, de quem administra um restaurante, de quem presta um serviço ou de quem construiu uma empresa.

Não considero a divergência política uma falha moral que precise ser corrigida pela humilhação econômica.

E me recuso a confundir poder aquisitivo com superioridade moral.

Porque existe uma diferença fundamental entre ter dinheiro e ter grandeza.

A primeira condição pode ser herdada, acumulada ou conquistada.

A segunda exige caráter.

E caráter, infelizmente, não acompanha necessariamente o patrimônio.

Termino com uma pergunta aos entusiastas dessas listas:

Se amanhã alguém decidir que vocês também são politicamente indesejáveis, que seus negócios devem ser evitados, que seus empregos devem ser comprometidos e que suas famílias devem arcar com as consequências de suas convicções, continuarão chamando isso de liberdade?

Ou finalmente reconhecerão a perseguição quando estiverem do outro lado?

Porque talvez seja essa a tragédia de certas pessoas: só descobrem o valor da democracia quando deixam de controlar quem merece usufruir dela.

E uma última observação:

A história está repleta de pessoas que acreditavam estar do lado certo enquanto organizavam listas de quem deveria ser excluído.

Nem todas entraram para a história do lado que imaginavam.

Êdela Nicoletti

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