Impossível começar com o livro que já terminei
Li essa frase, num momento em que voltar já não era possível, só seguir diferente
Há frases que não pedem explicação.
Elas pedem silêncio, e depois, escrita.
Quando li “impossível começar com o livro que já terminei”, em um livro, do autor turco, İsmet Özel, não pensei em literatura. Pensei em mim. Pensei naquele ponto exato da vida em que a gente tenta voltar, mas o chão já não responde do mesmo jeito.
Não se trata de reler um livro.
Trata-se de reconhecer que certos fins nos tornam irrecuperáveis.
O problema não é o fim, é o começo
O fim, curiosamente, a gente aceita.
Há despedidas, encerramentos, perdas, conclusões inevitáveis. O que dói mesmo é perceber que o começo não está mais disponível.
Porque começar exige inocência.
E depois de terminar certos livros, certas fases, certas versões de nós mesmos, a inocência não está mais ali. No lugar dela, há memória. Há lucidez. Há cicatriz.
E cicatrizes não voltam ao estado inicial da pele.
O livro que terminou você
Todo mundo carrega um “livro” desses:
uma relação que mudou nossa forma de confiar
uma ideia que desmontou nossas certezas
uma dor que nos obrigou a crescer antes da hora
ou uma verdade que, depois de vista, não pode mais ser desvista
Tentamos, às vezes, começar de novo como se nada tivesse acontecido. Mas algo em nós resiste. Não por orgulho, por honestidade.
A frase não é pessimista.
Ela é radicalmente sincera.
Não é sobre voltar, é sobre seguir diferente
“Impossível começar” não significa “impossível continuar”.
Significa apenas que o próximo passo não pode fingir ser o primeiro.
Seguir adiante, depois de certos términos, exige aceitar que:
não somos mais os mesmos
não começamos do zero
e nunca mais começaremos “limpos”
Mas talvez isso não seja uma perda.
Talvez seja o preço de ter vivido algo que realmente importou.
O que começa, então?
Se não podemos começar com o livro que já terminamos, talvez a pergunta correta seja outra:
com quem começamos agora?
Com menos ilusão, talvez.
Com mais verdade.
Com a consciência de que alguns livros não servem para serem relidos,
servem para nos ensinar quem não somos mais.
E isso, por mais duro que seja, também é uma forma de liberdade.