Só quem é atingido pela bola sabe
Algumas defesas podem salvar o time. Elas são aplaudidas, celebradas, analisadas em câmera lenta. Do lado de fora, parecem perfeitas. Técnicas, estratégicas, eficientes. Mas há algo que quase nunca aparece no placar, o impacto em quem recebeu a bola.
Só quem é atingido pode falar do efeito que ela tem.
Há dores que não fazem barulho. Elas não caem no gramado, não interrompem o jogo, não pedem atendimento imediato. São dores que seguem em silêncio, enquanto o mundo continua aplaudindo a jogada bem executada. Traições, por exemplo, costumam vir assim: rápidas, precisas, inesperadas. E quase sempre quem observa encontra justificativas, contextos, explicações razoáveis.
Mas nenhuma explicação diminui o impacto em quem foi atingido.
O silêncio que vem depois não é fraqueza. É sobrevivência. É o tempo necessário para entender onde a bola acertou, o que foi quebrado por dentro, e se ainda há fôlego para continuar em campo. Nem toda dor pede vingança. Algumas pedem apenas distância, lucidez e a coragem de não se explicar para quem não sentiu.
A vingança, muitas vezes, é só a tentativa desesperada de devolver a dor. Mas devolver não cura. No máximo, distrai. O que realmente transforma é encarar o impacto sem maquiagem, sem aplausos, sem torcida. É reconhecer que algo doeu, e muito, mesmo que ninguém tenha visto.
Existe uma violência silenciosa em minimizar a dor do outro. Em dizer que “faz parte do jogo”, que “todo mundo passa por isso”, que “era previsível”. Não era. Nunca é, para quem confia. Nunca é simples, para quem sente.
Algumas defesas salvam o time, sim. Mas só quem é atingido sabe o peso da bola, a força do golpe e o tempo que leva para voltar a respirar.
E talvez a reflexão mais profunda seja essa: antes de julgar a jogada, escute quem caiu. Porque há impactos que não aparecem na transmissão, mas mudam alguém para sempre.