Não era sobre o abraço.

Não era sobre o abraço
Sobre aquilo que a gente cobra quando, na verdade, só queria ser ouvido.

Brigar por um abraço que não veio.
Por um “eu te amo” que não foi dito.

Parece pequeno.
Mas não é.

Hoje eu briguei com você.
Uma discussão com sentido… e totalmente sem sentido.

Porque, no fundo, não era sobre o abraço.
Nem sobre as palavras.

Era sobre o silêncio.

Sobre aquele lugar estranho onde a gente fala —
mas não se sente ouvido.

E então a gente exagera.
Estica.
Cobra.

Como se, ao aumentar o volume da exigência,
finalmente alguém fosse escutar o que está por trás dela.

Mas há uma crueldade sutil nisso:
exigir do outro mais do que ele pode dar
é, muitas vezes, uma forma desesperada
de tentar ser visto.

Não é sobre o outro.
É sobre o vazio que a gente tenta preencher com ele.

Simone de Beauvoir escreveu que “querer ser amado não é o mesmo que amar”.

E talvez exista algo ainda mais incômodo aqui:
querer ser amado do jeito exato que imaginamos
também não é amar.

É controle.
É medo.
É carência vestida de necessidade legítima.

A gente pede colo…
mas, às vezes, pede com as mãos fechadas.

E mãos fechadas não recebem.
Só exigem.

No fundo, a dor não é só o que o outro não deu.
É o quanto a gente ainda não aprendeu
a sustentar o que sente
sem transformar isso em cobrança.

Porque quando tudo vira exigência,
o amor deixa de ser encontro
e vira dívida.

E ninguém permanece inteiro,
onde só é possível dever.

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