Gatunos não têm sete vidas
Há quem roube sem tocar em nada.
Não leva objetos.
Leva o que não volta.
Tempo.
Energia.
Confiança.
E faz isso sem pressa.
Sem alarde.
Quase sem ser percebido.
Não são os óbvios.
Não são os que arrombam.
São os que entram quando a porta está entreaberta, ou quando ninguém teve coragem de fechá-la.
Vivem de pequenos excessos.
De concessões acumuladas.
De espaços que não lhes pertenciam,
mas nunca lhes foram negados.
E há algo sofisticado nesse tipo de movimento:
eles raramente parecem errados o suficiente.
Atravessam… mas com justificativa.
Avançam… mas com naturalidade.
Tomam… mas sem parecer que tomaram.
E talvez por isso permaneçam.
Porque o que é claramente inaceitável,
a gente corta.
Mas o que é apenas desconfortável…
a gente tolera.
E é nesse intervalo,
entre o que fere e o que ainda é “administrável”,
que muitos se instalam.
Existe uma fantasia silenciosa de que isso pode durar.
De que há sempre mais uma chance.
Mais uma adaptação.
Mais uma tentativa de fazer caber.
Mas não há.
Não porque o outro vai mudar.
Mas porque há um limite estrutural em tudo que é sustentado à custa de si.
E esse limite, quando chega,
não é dramático.
É lúcido.
Ele não grita.
Não explica.
Não negocia.
Apenas retira o acesso.
E, nesse momento, uma verdade simples se impõe:
quem vive de atravessar
depende profundamente de quem permite.
Sem isso, não há espaço.
Não há palco.
Não há continuidade.
Por isso, não,
gatunos não têm sete vidas.
Têm, no máximo, o tempo que alguém leva
até finalmente decidir
não ser mais território disponível.