Não me peçam devoção.

Tenho muitas críticas à esquerda. Incomoda-me sua frequente pretensão de superioridade moral, a dificuldade de reconhecer os próprios erros e a facilidade com que alguns de seus representantes relativizam aquilo que condenariam sem hesitar se viesse do adversário. Não me agradam os discursos de justiça que, por vezes, convivem tão confortavelmente com privilégios, incoerências e conveniências.

Da direita, tenho divergências ainda mais profundas em relação à maneira de compreender a sociedade. Incomoda-me a tendência de transformar desigualdades históricas em fracassos individuais, de tratar o mérito como se todos partissem do mesmo lugar e de confundir, tantas vezes, tradição com imobilismo, autoridade com autoritarismo e liberdade com indiferença ao sofrimento alheio.

Mas há algo que me incomoda de maneira particular, venha de onde vier: o fanatismo.

O bolsonarismo que transforma um homem em verdade absoluta e o lulismo que se recusa a enxergar qualquer contradição em seu líder me provocam uma profunda repulsa.

Não pela escolha eleitoral em si. Cada pessoa tem suas razões, sua história, suas convicções. Mas pela disposição de suspender o próprio julgamento para proteger alguém de qualquer crítica.

Tenho enorme dificuldade com pessoas que mudam seus princípios conforme muda o personagem envolvido. Que chamam de corrupção de um lado aquilo que, do outro, preferem chamar de equívoco. Que exigem respeito enquanto distribuem desprezo. Que defendem a democracia apenas quando ela lhes entrega o resultado desejado.

Isso não é convicção política. É devoção.

E devoção, quando entra na política, costuma deixar a inteligência do lado de fora.

Não acredito que esquerda e direita sejam iguais. Não são. Existem diferenças fundamentais entre seus projetos, seus valores e suas consequências. E essas diferenças importam muito para mim.

Mas também não acredito que uma causa justa santifique automaticamente quem a defende, nem que um político deva ser absolvido de suas contradições porque representa o campo com o qual simpatizamos.

Não preciso considerar todos iguais para me recusar a tratar qualquer um como infalível.

Nesta eleição, fiz minhas escolhas. Tenho razões para elas e não sinto necessidade de escondê-las. Também não espero que todos concordem comigo.

O que me espanta é perceber como algumas pessoas conseguem entregar a um político não apenas seu voto, mas também sua capacidade de duvidar.

Eu posso votar em alguém, defender um projeto e celebrar uma vitória. Posso, inclusive, sentir um enorme alívio com um resultado eleitoral.

Mas continuarei reservando para mim o direito de criticar quem ajudei a eleger.

Porque políticos devem receber votos, cobranças e, quando necessário, oposição.

Nunca adoração.

Minha consciência não está em disputa eleitoral. E minha inteligência não tem político de estimação.

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O dia seguinte.