O peso dos quase

Esta semana eu quase morri.

Escrever essa frase me parece exagerado.
Porque a palavra "quase" funciona como uma espécie de anestesia linguística.

Se eu dissesse que morri, todos compreenderiam a gravidade.

Mas eu não morri.

Eu quase morri.

E parece que o quase transforma uma tragédia em detalhe.

É curioso como tratamos os quase da vida.

Quase sofri um acidente.
Quase perdi meu filho.
Quase tive um infarto.
Quase pulei.
Quase fui embora.
Quase consegui.

O quase parece uma categoria menor da existência.
Uma nota de rodapé dos acontecimentos.

Mas quem viveu sabe que não é.

Porque às vezes o coração dispara exatamente da mesma forma.
O medo atravessa exatamente da mesma forma.
A despedida passa pela cabeça exatamente da mesma forma.

O corpo não entende gramática.

Ele não sabe a diferença entre o que aconteceu e o que quase aconteceu.

Há pessoas que carregam traumas de algo que nunca chegou a acontecer.
E isso não é exagero.
É humanidade.

O carro freou a tempo.
Mas durante anos você ainda reduz a velocidade naquele cruzamento.

O exame veio normal.
Mas existe uma noite inteira que você já passou imaginando quem seus filhos seriam sem você.

A pessoa não foi embora.
Mas você já conheceu o gosto da perda.

Talvez por isso os quase mereçam mais respeito.

Porque eles nos apresentam versões alternativas da nossa vida.

A vida que não vivemos.
A tragédia que não aconteceu.
A felicidade que escapou.
O amor que não começou.
A palavra que não foi dita.

Existe um cemitério silencioso de quase dentro de cada ser humano.

Quase médicos.
Quase casamentos.
Quase viagens.
Quase reconciliações.
Quase despedidas.

E talvez seja justamente por isso que os quase nos incomodem tanto.

Eles não terminam.

O que acontece vira história.

O que não acontece vira pergunta.

E perguntas costumam sobreviver por muito mais tempo do que respostas.

Esta semana eu quase morri.

E talvez a maior estranheza não tenha sido perceber que eu poderia não estar aqui.

Foi perceber como o mundo espera que a gente siga adiante rapidamente quando existe um "quase" na frase.

Mas alguns quase mudam tudo.

Mesmo quando nada aconteceu.

Ou talvez, justamente porque quase aconteceu.

 

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