AMANHÃ NÃO EXISTE
Talvez uma das frases mais desconcertantes que encontrei recentemente tenha vindo de uma reflexão do Sartre no livro de Albert Camus:
Não existe amanhã. O que existe é uma continuidade de presentes.
Li. Parei.
E pensei imediatamente em quantas pessoas passam boa parte da vida tentando resolver um dia que ainda não chegou.
Amanhã eu posso fracassar.
Amanhã alguma coisa pode acontecer.
Amanhã posso perder alguém.
Amanhã posso adoecer.
Amanhã talvez eu não dê conta.
Amanhã tudo pode dar errado.
Pode.
Esse é justamente o problema.
O futuro aceita qualquer tragédia que a nossa imaginação seja capaz de inventar.
E, como ele ainda não aconteceu, não oferece nenhuma evidência em sua própria defesa.
Talvez por isso seja tão fácil ter medo dele.
Na ansiedade, o amanhã deixa de ser apenas uma dimensão do tempo e se transforma numa espécie de território psicológico onde tentamos chegar antes da própria vida.
Ensaiamos conversas que nunca aconteceram.
Respondemos perguntas que ninguém fez.
Sofremos perdas que ainda não tivemos.
Procuramos soluções para problemas que talvez nunca existam.
Tentamos prever reações, controlar desfechos, evitar decepções, calcular riscos.
Tudo em nome de uma promessa silenciosa:
se eu pensar o suficiente sobre o amanhã, talvez ele não consiga me surpreender.
Mas consegue.
Porque preocupação não é previsão.
E controle não é segurança.
Há algo especialmente perverso na ansiedade: ela nos convence de que sofrer antecipadamente é uma forma de proteção.
Como se imaginar a queda pudesse amortecer o impacto.
Como se ensaiar a tragédia diminuísse a dor caso ela acontecesse.
Como se preocupar-se hoje fosse uma espécie de pedágio que pagamos para sofrer menos amanhã.
Não é.
O medo da catástrofe não impede a catástrofe.
Apenas permite que uma possibilidade ocupe, antecipadamente, o espaço de uma realidade.
E então acontece algo curioso: na tentativa de proteger o futuro, começamos a sacrificar o presente.
A pessoa está numa viagem, mas pensa na volta.
Está numa comemoração, mas pensa no que pode dar errado depois.
Recebe uma boa notícia e imediatamente procura a ameaça escondida dentro dela.
Ama alguém e já imagina a perda.
Conquista alguma coisa e começa a temer o momento em que poderá perdê-la.
É quase como se a felicidade precisasse ser vigiada.
Porque relaxar parece perigoso.
E talvez uma das frases mais tristes que a ansiedade sussurre seja:
“Não aproveite demais. Você não sabe o que vem depois.”
É verdade.
Não sabemos.
Mas há uma conclusão completamente diferente que poderia nascer exatamente da mesma constatação:
Aproveite. Você não sabe o que vem depois.
A incerteza que assusta também é a incerteza que permite.
Pode dar errado.
Mas pode não dar.
Pode terminar.
Mas pode durar muito mais do que imaginamos.
Pode haver perda.
Mas também pode haver encontro.
O problema é que a mente ansiosa costuma tratar possibilidades dolorosas como se fossem acontecimentos a caminho.
E possibilidades boas como se precisassem apresentar documentos.
Talvez por isso a ideia de que não existe amanhã me tenha provocado tanto.
Não porque o futuro seja irrelevante.
Planejar é necessário.
Antecipar algumas consequências é inteligência.
Preparar-se é cuidado.
Mas existe uma diferença imensa entre preparar o futuro e morar nele.
Podemos marcar uma consulta para terça-feira.
Podemos comprar uma passagem para dezembro.
Podemos fazer planos para os próximos dez anos.
Mas, quando terça-feira chegar, será presente.
Quando dezembro chegar, será presente.
Quando aquele futuro finalmente nos encontrar, ele terá perdido justamente aquilo que hoje tanto nos assusta:
terá deixado de ser futuro.
E talvez seja isso que esquecemos quando tentamos viver adiantados.
A vida nunca acontece amanhã.
A vida acontece sempre neste instante estreito em que alguma coisa está, de fato, acontecendo.
Depois vem outro.
E outro.
E outro.
Uma continuidade de presentes.
O amanhã pode ser planejado.
Pode ser desejado.
Pode ser temido.
Pode até ocupar a nossa agenda inteira.
Só não pode ser vivido.
E talvez a ansiedade cobre um preço alto demais por tentar fazer justamente isso.
Porque enquanto você tenta impedir que a vida doa amanhã,
ela está acontecendo hoje.
E existe uma perda para a qual talvez devêssemos olhar com mais cuidado:
não apenas a perda das coisas que um dia acabam,
mas a perda das coisas que estavam aqui
e das quais estivemos ausentes enquanto ainda existiam.