O silêncio repousa. O vazio encara você.
Há silêncios que acolhem.
Depois de uma conversa longa, de uma notícia difícil, de uma dor que finalmente encontrou palavra, o silêncio pode ser uma espécie de descanso. Ele não exige resposta. Apenas fica. Como quem se senta ao nosso lado sem a pretensão de resolver o que ainda não tem solução.
Mas existe outro silêncio.
Aquele que não repousa em nós; repousa ao redor.
E, quando tudo finalmente se cala, o vazio se aproxima. Não pede licença. Não oferece consolo. Apenas encara você.
É então que percebemos o quanto temos nos mantido ocupados para não escutar.
A agenda cheia. A mensagem respondida depressa. A tela acesa. O trabalho que transborda. A preocupação que se disfarça de responsabilidade. As relações que se mantêm em movimento, mesmo quando já não há encontro. Tudo aquilo que, de algum modo, nos poupa de ficar diante da pergunta que evitamos fazer.
O que é que está faltando?
Não uma falta qualquer. Mas aquela que não se resolve com uma compra, uma viagem, uma conquista ou uma nova tarefa na lista. A falta que persiste mesmo quando, aparentemente, não falta nada.
O vazio tem uma crueldade discreta: ele não grita. Não faz escândalo. Não pode ser facilmente culpado. Ele apenas nos devolve a nós mesmos, sem o barulho que costumamos usar para nos explicar.
E isso é profundamente desconfortável.
Porque, diante do vazio, pode aparecer a solidão que chamávamos de independência. Pode aparecer o luto que chamávamos de saudade. Pode aparecer o cansaço que chamávamos de produtividade. Pode aparecer a vida que estamos adiando enquanto nos ocupamos de sobreviver a ela.
Nem todo vazio precisa ser preenchido. Alguns precisam ser compreendidos.
Há ausências que pedem reparação. Há outras que pedem despedida. Há ainda aquelas que revelam que estivemos tentando receber, de fora, algo que só começará a existir quando pudermos nos aproximar de nós mesmos com menos pressa e menos julgamento.
O silêncio repousa.
Mas o vazio encara você.
E talvez seja justamente nesse olhar incômodo que alguma verdade, antes soterrada pelo excesso, começa a pedir passagem.