Pensar Dá Trabalho (E Nem Todos Estão Dispostos)
Existe hoje uma estranha celebração da opinião. Opinar virou sinônimo de existir publicamente. Quanto menos elaborado o pensamento, maior a urgência de publicá-lo. Quanto mais frágil a base, maior a convicção com que se afirma.
Vivemos um tempo em que pessoas compartilham informações colhidas “em algum lugar”, retiradas de contexto, reduzidas a frases de efeito, e apresentadas como posicionamento político, moral ou intelectual, sem pudor, sem dúvida e, sobretudo, sem reflexão. A liberdade de expressão passou a ser confundida com a dispensa do pensamento.
Opinar não exige trabalho. Pensar, sim.
Pensar exige atravessar fontes, sustentar contradições, admitir ignorância provisória. Exige reconhecer que a realidade política, social e subjetiva é complexa demais para caber em posts apressados, indignações prontas ou certezas emocionais. Mas esse esforço parece excessivo para uma cultura que recompensa visibilidade, não consistência.
A opinião sem reflexão não é inofensiva. Ela produz ruído, reforça polarizações artificiais e transforma a complexidade do mundo em narrativas pobres, facilmente consumíveis. O problema não é discordar, é não ter com o que sustentar a discordância.
Quando qualquer informação pode ser publicada sem critério, o pensamento deixa de ser um processo e vira um gesto impulsivo. Publica-se para aliviar a própria angústia, para marcar posição, para pertencer a um grupo, não para compreender.
A psicologia, quando se cala diante disso, também participa do problema. Porque sabe, ou deveria saber, que agir sem reflexão não é liberdade; é repetição. Que expressar tudo o que se pensa, sem mediação, não é autenticidade; é acting out. Que a ausência de elaboração transforma opinião em descarga.
Há algo profundamente inquietante na facilidade com que se fala de política, sofrimento, ética e vida coletiva sem qualquer responsabilidade simbólica. Como se o simples fato de “ter uma opinião” já fosse suficiente para legitimá-la. Como se pensar fosse opcional.
Mas pensar nunca foi neutro, e nunca foi confortável. Pensar implica aceitar que talvez não saibamos o suficiente. Que talvez nossas certezas sejam frágeis. Que talvez aquilo que repetimos diga mais sobre nossos vínculos e medos do que sobre a realidade.
A recusa ao pensamento tem consequências. Ela empobrece o debate público, banaliza o sofrimento e transforma temas sérios em arenas de vaidade moral. A pressa em opinar substitui o compromisso de compreender.
Este texto não defende silêncio absoluto. Defende responsabilidade intelectual. Defende a ideia, hoje quase ofensiva, de que nem tudo o que pode ser dito deveria ser dito sem antes ser pensado.
Pensar dá trabalho porque exige freio.
Exige limite.
Exige a coragem de não publicar tudo.
E talvez o verdadeiro gesto político, neste tempo, seja justamente esse:
pensar antes de falar, e sustentar o silêncio quando o pensamento ainda não chegou.