“Você Não Precisa Superar”

Existe uma violência silenciosa disfarçada de conselho: a exigência de superação.
Ela costuma vir de quem já está cansado da dor do outro, não de quem realmente se importa com o que foi vivido.

“Você precisa superar” raramente significa cuidado.
Na maior parte das vezes, significa: “volte a funcionar”, “não fale mais disso”, “não nos constranja com o que ainda dói”.

A sociedade tolera o sofrimento apenas enquanto ele é breve, discreto e compreensível. Depois disso, ele passa a ser visto como insistência, fragilidade ou falta de maturidade emocional. O problema não é a dor, é o tempo que ela ocupa.

Famílias cobram normalidade.
Amigos pedem leveza.
Instituições exigem produtividade, estabilidade, equilíbrio.

Há pouco espaço para quem carrega marcas que não se resolvem rapidamente.

Superar virou uma obrigação moral. Um ideal quase higiênico: sentir, sofrer, chorar, mas apenas dentro de um prazo aceitável. Passado esse limite, o sofrimento se torna inconveniente, algo que deveria ter sido resolvido em silêncio.

Mas nem toda experiência pede superação.
Algumas pedem reconhecimento.
Outras pedem tempo.
E muitas pedem apenas o direito de existir sem serem constantemente empurradas para fora do campo do aceitável.

Traições, perdas, rupturas e violências não são obstáculos a serem ultrapassados como etapas de um manual de autoajuda. Elas reorganizam a vida. Alteram a forma como alguém confia, se vincula, se expõe. Exigir superação é exigir que essa transformação não tenha efeitos visíveis.

Há algo profundamente político nessa cobrança. Ela preserva a ordem, o conforto coletivo e a ilusão de normalidade. Quem sofre demais, por tempo demais, ameaça essa estabilidade. Por isso precisa “seguir em frente”.

Mas seguir em frente não é apagar.
Não é esquecer.
E não é voltar a ser quem se era antes.

Talvez o gesto mais radical seja recusar a pressa. Recusar a narrativa da cura obrigatória. Recusar a ideia de que toda dor precisa ser resolvida para ser aceita.

Você não precisa superar para merecer respeito.
Não precisa estar bem para ser considerado inteiro.
Não precisa fechar a ferida para seguir vivendo.

Algumas experiências não pedem superação.
Pedem que o mundo aprenda a conviver com quem foi atravessado por elas.

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