Quando a confiança troca de lugar

Há algo curioso acontecendo, e, ao mesmo tempo, profundamente inquietante.

As pessoas estão desconfiando mais de veículos jornalísticos… do que de mensagens encaminhadas por amigos. Vocês já perceberam isto?

Dito assim, parece apenas uma mudança de comportamento.
Mas não é.

É uma mudança no lugar onde a verdade se ancora.

Durante décadas, a credibilidade esteve associada a processos: apuração, checagem, responsabilidade editorial. Não era perfeito, nunca foi, mas havia um compromisso explícito com o método.

Hoje, esse eixo se desloca.

A confiança deixa de estar no processo… e passa a estar na relação.

Não importa tanto como aquela informação foi produzida.
Importa quem me enviou.

Se veio de alguém próximo, de um grupo familiar, de uma pessoa com quem compartilho valores… aquilo ganha um estatuto de verdade que dispensa verificação.

E é aqui que a coisa fica interessante, e perigosa.

Porque vínculos não são critérios de verdade.
São critérios de conforto.

A informação que circula entre conhecidos não chega sozinha.
Ela vem carregada de afeto, de identificação, de pertencimento.
Ela confirma o que eu já penso, organiza o mundo de um jeito familiar, reduz a fricção.

O jornalismo, por outro lado, muitas vezes faz o oposto.
Contraria, tensiona, incomoda.

E, em um mundo emocionalmente saturado, o incômodo perde espaço para o acolhimento, mesmo que esse acolhimento venha travestido de desinformação.

Há ainda um outro elemento, mais silencioso.

As redes sociais criaram a ilusão de consenso.
Se muitas pessoas próximas compartilham a mesma ideia, aquilo parece verdade. Não porque foi verificado… mas porque foi repetido.

A repetição virou argumento.
E o grupo virou prova.

O problema não é apenas acreditar no que é falso.
É começar a desconfiar do que exige esforço para ser compreendido.

Porque a verdade, a mais próxima que conseguimos construir, costuma ser mais complexa, mais ambígua e, frequentemente, menos confortável do que gostaríamos.

E talvez seja esse o ponto mais delicado de todos:

Não estamos trocando informação confiável por informação duvidosa.
Estamos trocando critérios.

Saímos da lógica da evidência…
para a lógica da identificação.

E quando a identificação vale mais do que a evidência, a verdade deixa de ser algo que se investiga…
e passa a ser algo que se escolhe.

Com base em quem fala, não no que é dito.

Um brinde, então, a esse novo pacto silencioso.

Onde a confiança não é construída…
é sentida.

E, justamente por isso, raramente questionada.

 

Anterior
Anterior

As três maçãs que caem do céu

Próximo
Próximo

Quando o Afeto Vira Suspeita