Quando o Afeto Vira Suspeita
Estamos vivendo uma era curiosa:
as pessoas defendem saúde mental enquanto desaprendem intimidade humana.
Um abraço pode ser suspeito.
Uma mão no ombro pode ser interpretada como invasão.
Um gesto de cuidado pode virar relatório jurídico.
Claro: abusos existem.
E justamente porque existem, precisam ser combatidos com seriedade.
Mas existe uma diferença gigantesca entre violência e humanidade.
E talvez estejamos começando a perder essa distinção.
Em muitos lugares do mundo, especialmente na cultura latino-americana, o afeto não é apenas verbal. Ele é corporal. Está no abraço demorado, no toque que consola, no beijo no rosto, na proximidade que comunica: “você não está sozinho”.
Enquanto isso, em certos ambientes contemporâneos, principalmente corporativos, parece que o corpo humano virou uma ameaça ambulante. Tudo precisa ser calculado, esterilizado, documentado. Como se espontaneidade fosse um risco ético.
O paradoxo é fascinante:
nunca se falou tanto sobre conexão…
e nunca houve tanto medo do contato humano.
Talvez porque uma sociedade profundamente individualista precise transformar proximidade em perigo.
Porque pessoas emocionalmente desconectadas tendem a interpretar calor humano como invasão.
Porque, quando a confiança morre, sobra apenas vigilância.
Byung-Chul Han dizia que estamos deixando de ser uma sociedade disciplinar para nos tornarmos uma sociedade do cansaço e do controle emocional silencioso. Eu acrescentaria:
talvez estejamos nos tornando também uma sociedade da assepsia afetiva.
Tudo higienizado.
Tudo protocolado.
Tudo seguro.
Tudo frio.
E há algo profundamente triste nisso.
Uma civilização que desaprende o toque talvez esteja desaprendendo, aos poucos, a própria experiência de pertencimento humano.
O desafio não é abolir limites.
O desafio é não transformar toda ternura em suspeita.
Porque uma sociedade incapaz de distinguir afeto de ameaça inevitavelmente produzirá pessoas cada vez mais solitárias, defensivas e emocionalmente famintas.