Sobre o que não se sustenta

Há experiências que não cabem em linguagem jurídica,
embora atravessem anos dentro dela.

O que se desenrola nos autos é apenas uma versão pálida
daquilo que, de fato, se passa na vida.

Porque existem processos que não são feitos de petições,
mas de vínculos rompidos,
de sentidos distorcidos,
de uma espécie de estranhamento profundo diante do que, um dia, foi confiança.

E talvez o mais desconcertante não seja a acusação em si,
mas a naturalidade com que ela passa a coexistir com gestos que, à superfície, fingem não saber de nada.

Lembro de um encontro.

Um evento.
Luzes, pessoas, circulação,
como se o mundo seguisse intacto.

E, ali, um gesto simples:
um beijo no rosto.

Como se fosse possível separar as coisas.
Como se eu fosse apenas um corpo deslocado daquilo que construí.
Como se não houvesse história,
nem ruptura,
nem tudo aquilo que, silenciosamente, já estava em curso.

Há uma violência que não se anuncia.
Ela não eleva o tom,
não precisa de confronto direto.

Ela se manifesta na desconsideração.

Na capacidade de atravessar limites que, para qualquer ética minimamente sensível, seriam intransponíveis.

Porque não se trata apenas de uma disputa.

Houve pessoas.

Pessoas que estavam dentro,
não apenas de uma estrutura,
mas de relações.

Uma delas, um dia, confiou como paciente.
Outra, como amiga, daquelas que se nomeiam sem hesitação.

E, ainda assim, tudo isso foi atravessado
como se não tivesse peso.

Como se vínculos fossem descartáveis.
Como se confiança fosse um detalhe.

E é nesse ponto que algo mais profundo se rompe.

Não apenas entre pessoas,
mas na própria crença de que há limites que não serão ultrapassados.

Durante muito tempo, foi preciso sustentar.
Não apenas o trabalho,
mas os efeitos invisíveis disso tudo.

Segurar aquilo que ameaçava desorganizar não só estruturas externas,
mas também a fé, tão delicada, no próprio campo em que escolhemos atuar.

Porque há feridas que não atingem apenas indivíduos.
Elas alcançam o sentido do que fazemos.

E isso… leva tempo para ser reorganizado.

Hoje, olhando para trás, o que resta não é a narrativa.
Ela se dissolve.

O que resta é outra coisa.

A constatação silenciosa de que nem tudo que é possível fazer
deveria ser.

E que há escolhas que dizem mais sobre quem as faz
do que qualquer argumento que se construa depois.

O tempo passou.
Como sempre passa.

E, com ele, veio algo que não é exatamente alívio,
mas uma espécie de clareza sem urgência.

Algumas histórias não terminam com um ponto final enfático.
Elas apenas cessam de ocupar o mesmo lugar dentro de nós.

Hoje, o choro veio.

Não como resposta,
nem como reação tardia.

Mas como um gesto simples e, de certa forma, raro:
o de finalmente não precisar mais conter.

E, nesse espaço que se abre,
há algo que permanece intacto.

Não a história.
Não os nomes.
Nem os fatos como foram contados.

Mas aquilo que, apesar de tudo, não se deixou corromper:

a integridade silenciosa de quem atravessou,
e ainda assim permaneceu.

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