1. Quando o valor vira visibilidade

Vivemos em um tempo em que a comparação deixou de ser um hábito ocasional e se tornou uma estrutura permanente da experiência. Não comparamos mais apenas conquistas ou trajetórias; comparamos modos de viver, corpos, pensamentos, rotinas, silêncios e até dores. As redes sociais não criaram essa tendência, mas a tornaram contínua, mensurável e inescapável. O valor, que antes se construía lentamente na relação consigo e com o mundo, passou a ser associado à visibilidade.

Nesse contexto, ser visto tornou-se quase sinônimo de existir. Aquilo que não é exposto parece perder relevância, como se a experiência só se completasse quando validada externamente. O problema não está na exposição em si, mas no deslocamento silencioso que ela provoca: deixamos de perguntar quem somos para nos perguntar como estamos sendo percebidos. A identidade, antes vivida, passa a ser administrada.

Essa confusão entre essência e aparência não é nova. Já em Platão, encontramos a distinção entre o que é e o que apenas parece ser. O mundo das aparências, quando tomado como critério último, afasta o ser humano daquilo que é estável e comum a todos. O que muda hoje é a escala: nunca estivemos tão expostos ao olhar alheio, nem tão dependentes dele para confirmar nosso valor.

A comparação constante produz um efeito curioso. Ao mesmo tempo em que nos torna hiperconscientes de nós mesmos, também nos afasta de quem realmente somos. Passamos a nos enxergar de fora, como se fôssemos objetos em avaliação. Cada escolha vira performance; cada pausa, risco de irrelevância. O outro deixa de ser semelhante e passa a ser medida, alguém diante de quem nos sentimos sempre em falta ou, ocasionalmente, em vantagem.

Esse movimento corrói lentamente a ideia de igualdade essencial. Se todos partilhamos a mesma origem e o mesmo valor, por que nos sentimos permanentemente insuficientes? Talvez porque, ao medir a vida por critérios externos, substituímos um valor ontológico por um valor comparativo. Não valemos por existir, mas por performar melhor do que alguém. E esse jogo, por definição, nunca se encerra.

Do ponto de vista filosófico, trata-se de uma inversão perigosa. Como já observava Aristóteles, a vida humana não se realiza no excesso nem na acumulação de reconhecimento, mas na justa medida, no equilíbrio entre ação, contemplação e relação. Quando tudo se torna exposição, perdemos o espaço interior necessário para reconhecer sentido no que fazemos.

Há também um efeito ético. A comparação contínua dificulta a empatia, porque transforma o outro em concorrente simbólico. Mesmo sem intenção, passamos a disputar atenção, relevância e legitimidade. A alteridade deixa de ampliar e passa a ameaçar. Não porque o outro seja hostil, mas porque o sistema nos ensinou a enxergar valor como algo escasso.

Talvez por isso o cansaço contemporâneo seja tão difuso. Não é apenas excesso de tarefas, mas excesso de auto-observação. Um esgotamento que nasce da tentativa constante de corresponder a um olhar invisível, mas sempre presente. Nesse cenário, desligar-se, silenciar ou simplesmente não mostrar passa a ser um gesto quase subversivo.

Lembrar da igualdade essencial, aqui, não é um exercício abstrato. É um gesto prático. Significa reconhecer que a vida não precisa ser validada para ter valor, que a experiência não precisa ser exibida para ser real e que o outro não diminui nossa existência ao brilhar. Ao contrário: se viemos da mesma fonte, o brilho de um não apaga o do outro.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja aprender a nos destacar, mas reaprender a existir sem plateia. Recuperar um espaço interno onde o valor não oscila conforme a aprovação externa. Em um mundo que nos empurra constantemente para fora, lembrar quem somos, antes da imagem, do número e da comparação, pode ser o primeiro passo para voltar a habitar a própria vida.

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