2. Quem somos quando não estamos sendo vistos

Uma das perguntas mais antigas da filosofia reaparece hoje de forma silenciosa e inquietante: quem somos quando não estamos sendo observados? Em uma época marcada pela exposição constante, essa questão deixa de ser apenas teórica e passa a ser existencial. A vida contemporânea nos convida, ou nos pressiona, a estar sempre disponíveis ao olhar do outro, como se a identidade precisasse ser continuamente confirmada para não desaparecer.

Nesse contexto, ser torna-se inseparável de parecer. Não vivemos apenas experiências; nós as comunicamos. Não sentimos apenas emoções; nós as enquadramos. Pouco a pouco, a identidade deixa de ser algo vivido internamente e passa a ser algo administrado externamente. Criamos versões de nós mesmos que funcionam, que agradam, que circulam bem, ainda que nem sempre coincidam com aquilo que somos no silêncio.

Essa tensão entre essência e aparência não é um problema novo. Já em Platão, encontramos a advertência de que o mundo visível pode nos afastar da verdade do ser quando é tomado como critério último. O que se mostra nem sempre revela; muitas vezes, encobre. O perigo não está em aparecer, mas em esquecer que aquilo que aparece não esgota aquilo que é.

O que muda, no entanto, é a intensidade. Nunca houve um tempo em que a identidade estivesse tão exposta e, ao mesmo tempo, tão frágil. Somos incentivados a definir quem somos por opiniões, posições, estilos de vida e narrativas pessoais. Qualquer mudança interna passa a soar como incoerência; qualquer silêncio, como ausência. A identidade, que deveria ser dinâmica, torna-se rígida por medo de perder reconhecimento.

O resultado é uma forma sutil de aprisionamento. Passamos a sustentar personagens que já não nos representam totalmente, mas que não ousamos abandonar. A performance garante pertencimento, mas cobra um preço: a perda gradual de contato com aquilo que não é exibível, mensurável ou socialmente valorizado. O espaço interior, onde a identidade se forma com mais lentidão e ambiguidade, vai sendo comprimido.

Do ponto de vista filosófico, isso revela um deslocamento profundo. A identidade deixa de ser uma busca e passa a ser uma vitrine. Em vez de perguntar quem estou me tornando?, passamos a nos perguntar como estou sendo percebido?. A resposta, quase sempre, depende mais do olhar alheio do que da própria experiência. O eu se constrói para fora antes de se consolidar por dentro.

Esse processo também afeta a relação com o outro. Quando todos estão performando, o encontro perde profundidade. Relacionamo-nos mais com imagens do que com pessoas. Criamos afinidades rápidas e rejeições imediatas, baseadas em recortes identitários que pouco dizem sobre a complexidade real de alguém. A alteridade deixa de ser encontro e passa a ser categorização.

Talvez por isso cresça, em paralelo, um desejo difuso por autenticidade. Mas até mesmo a autenticidade corre o risco de se tornar performance quando é exigida, exibida ou recompensada. Ser “verdadeiro” passa a ser mais um papel a cumprir. O paradoxo é evidente: buscamos ser nós mesmos enquanto seguimos modelos de como isso deveria parecer.

Recuperar a identidade, nesse cenário, não significa rejeitar o mundo visível, mas restabelecer um eixo interno. Significa aceitar que nem tudo o que somos precisa ser mostrado, explicado ou validado. Que a identidade não se perde no silêncio. Ao contrário: muitas vezes, é nele que ela se reorganiza.

Talvez a pergunta mais urgente do nosso tempo não seja quem eu sou para os outros, mas quem eu continuo sendo quando o olhar se afasta. Sustentar essa pergunta, sem respondê-la apressadamente, pode ser um dos gestos mais filosóficos, e mais humanos, que ainda nos restam.

 

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