A igualdade que esquecemos
Todos os seres são iguais em sua origem, em seus direitos naturais e também em seu objetivo final. Essa afirmação atravessa diferentes tradições filosóficas e espirituais, embora raramente organize a forma como vivemos. Desde cedo, somos educados a enfatizar diferenças, a competir por reconhecimento e a construir identidades baseadas na comparação. Agimos como se o valor humano fosse algo a ser conquistado, medido ou confirmado externamente, quando talvez ele seja, antes de tudo, um dado da própria existência.
Essa lógica competitiva nasce de uma confusão antiga: a ideia de que diferença implica desigualdade. Já na filosofia clássica, pensadores como Aristóteles reconheciam que a realidade se expressa por meio da multiplicidade das formas, mas não concluíam daí uma hierarquia de essência. A diversidade pertence ao modo como o ser se manifesta, não ao seu valor fundamental. No entanto, ao longo da história, aprendemos a transformar variação em comparação e singularidade em critério de superioridade.
A grandeza, então, passou a ser associada ao excesso, mais poder, mais visibilidade, mais reconhecimento. Perdemos de vista a possibilidade de que a verdadeira grandeza esteja justamente no contrário: no reconhecimento de uma origem comum. Como já sugeria Heráclito, tudo flui e se transforma, mas esse movimento não é caótico; ele obedece a uma unidade profunda que sustenta a multiplicidade. Esquecer essa unidade é o que nos leva a viver como se estivéssemos separados do todo.
Costumamos tratar a igualdade como uma construção política ou jurídica, algo que precisa ser garantido por leis ou defendido por discursos. Mas, antes disso, ela é uma questão ontológica. A filosofia clássica, especialmente em Platão, aponta para a ideia de que aquilo que participa de uma mesma origem partilha também de um mesmo valor essencial. As diferenças pertencem ao mundo das aparências e das formas; a igualdade, à estrutura mais profunda do ser.
Quando essa distinção se perde, o convívio humano se torna um campo permanente de disputa. O outro deixa de ser percebido como alguém que compartilha da mesma condição existencial e passa a ser visto como ameaça, obstáculo ou instrumento de validação. A alteridade, em vez de enriquecer, passa a gerar medo. Criamos fronteiras simbólicas que nos afastam justamente daquilo que poderia nos ampliar.
Reconhecer a igualdade essencial não significa negar as singularidades, mas colocá-las em seu devido lugar. Cada indivíduo expressa a vida de maneira única, assim como cada obra de arte manifesta, à sua maneira, uma mesma inspiração. A singularidade não contradiz a igualdade; ela é sua consequência natural. Quando compreendemos isso, a relação com o outro se transforma. Ele deixa de ser um parâmetro de comparação e passa a ser espelho.
Esse movimento reflexivo, tão valorizado na tradição filosófica, nos obriga a olhar para dentro. Aquilo que admiramos ou rejeitamos nos outros revela, muitas vezes, aspectos não reconhecidos em nós mesmos. A convivência deixa de ser apenas social e passa a ser também um exercício de autoconhecimento. O outro não é um problema a ser resolvido, mas uma possibilidade de compreensão ampliada da própria condição humana.
Talvez seja por isso que, em momentos de silêncio, contemplação ou suspensão do ruído cotidiano, surja uma sensação difícil de nomear: um sentimento de pertencimento profundo, como se a separação entre “eu” e “mundo” se tornasse menos rígida. Longe de ser irracional, essa experiência pode ser entendida como um alinhamento momentâneo entre percepção e realidade. Não se trata de abandonar a razão, mas de levá-la até suas últimas consequências.
Afinal, se todos viemos do mesmo princípio e caminhamos, cada um a seu modo, em direção ao mesmo fim, talvez o verdadeiro exercício filosófico não seja provar quem somos, mas lembrar o que somos. E, a partir dessa lembrança, viver com mais lucidez, responsabilidade e humanidade.