3. Quando existir parece improdutivo

Poucas ideias moldaram tão profundamente a experiência contemporânea quanto a associação entre valor e produtividade. Vivemos em uma cultura que não pergunta apenas o que fazemos, mas o quanto fazemos, em quanto tempo e com quais resultados visíveis. O tempo deixou de ser espaço de experiência para se tornar recurso a ser otimizado. Nesse cenário, existir sem produzir passou a gerar culpa.

Não se trata apenas de trabalhar muito, mas de sentir que nunca é suficiente. Mesmo o descanso precisa ser justificado; mesmo o silêncio precisa ter função. A pausa já não é repouso, mas estratégia para voltar a render. Aos poucos, o valor humano se confunde com desempenho, e a vida passa a ser avaliada por métricas que não foram feitas para medi-la.

Esse deslocamento produz um efeito existencial profundo. Quando o valor depende do que se entrega ao mundo, a dignidade se torna instável. Há sempre alguém produzindo mais, melhor ou mais rápido. O resultado é uma sensação difusa de inadequação, como se estivéssemos constantemente em dívida com a própria existência. Não é apenas o corpo que se cansa, mas a ideia de si.

A filosofia clássica oferece um contraponto importante a essa lógica. Para os estoicos, como Sêneca, o valor da vida não reside na quantidade de ações realizadas, mas na qualidade da relação com o tempo. Em seus escritos, ele alerta para o perigo de uma vida ocupada demais para ser vivida. Não é a falta de tempo que nos empobrece, mas a incapacidade de habitá-lo plenamente.

A perspectiva estoica não nega a ação nem o compromisso com o mundo, mas recusa a ideia de que a dignidade humana possa ser reduzida ao desempenho. Aquilo que nos torna valiosos não é o quanto produzimos, mas o fato de participarmos da vida racional e relacional. O ser humano não é meio para fins externos; ele é fim em si mesmo, uma ideia que atravessaria séculos depois na ética moderna.

O problema contemporâneo é que essa inversão se tornou quase invisível. Não somos obrigados a produzir o tempo todo; nós nos cobramos. A lógica da eficiência foi internalizada. Mesmo quando ninguém exige, sentimos que deveríamos estar fazendo algo “útil”. A inutilidade passou a ser vista como falha moral, e não como parte necessária da condição humana.

Esse modo de viver também empobrece o pensamento. A reflexão exige tempo improdutivo, silêncio, hesitação. A criatividade nasce em intervalos não programados. No entanto, em um mundo orientado por resultados imediatos, tudo o que não gera retorno rápido é descartado. A contemplação, que ocupava lugar central na filosofia antiga, passa a ser vista como luxo ou desperdício.

Há ainda um efeito ético importante. Quando o valor é medido pela produtividade, aqueles que não conseguem produzir, por doença, idade, fragilidade ou simplesmente por escolha, passam a ser percebidos como menos valiosos. A igualdade essencial, que deveria sustentar o convívio humano, é substituída por uma hierarquia silenciosa de desempenhos. Não é preciso excluir explicitamente; basta comparar.

Recuperar outra relação com o tempo e com o valor não significa abandonar responsabilidades, mas recolocar a vida em seu eixo. Significa reconhecer que o descanso não precisa ser merecido, que a pausa não é falha e que existir já é, em si, um acontecimento suficiente. Como lembrava Epicteto, há coisas que dependem de nós e coisas que não dependem, e confundir essas esferas é fonte constante de sofrimento.

Talvez o maior desafio, hoje, seja sustentar a própria dignidade em um mundo que a mede por desempenho. Lembrar que o valor não oscila conforme a agenda, que a vida não precisa ser justificada e que o tempo vivido não é tempo perdido. Em uma cultura que nos empurra continuamente para fazer mais, o gesto mais filosófico pode ser reaprender a simplesmente ser, sem culpa, sem pressa e sem a necessidade constante de provar que merecemos existir.

 

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