Trauma é herança. Valores também.

Como o medo, a psicologia e a política moldam o que transmitimos entre gerações

Quando Wagner Moura, ao receber o Globo de Ouro, disse que “se o trauma é geracional, os valores também podem passar de geração em geração”, ele não estava apenas agradecendo um prêmio. Estava nomeando um conflito central do nosso tempo.

Vivemos um mundo atravessado por traumas coletivos: ditaduras mal elaboradas, escravidão não reparada, guerras culturais permanentes, crises climáticas, desigualdades normalizadas. A psicologia já nos mostrou que traumas não desaparecem com o tempo, eles se transformam em padrões, em silêncios, em defesas, em repetições. Sociedades inteiras aprendem a sobreviver em estado de alerta.

E aqui entra um ponto crucial: quando a sobrevivência vira o valor central, todo o resto se estreita.

Na psicologia, chamamos de valores de sobrevivência aqueles ligados à segurança imediata: controle, obediência, medo do diferente, hierarquia rígida, fechamento identitário. Eles não são, em si, “maus”. Em contextos de ameaça real, eles salvam vidas. O problema é quando uma sociedade continua operando a partir deles mesmo quando a ameaça já não é concreta, apenas herdada.

É nesse terreno que o autoritarismo floresce. Não porque as pessoas “querem o mal”, mas porque aprenderam, geração após geração, que existir é se defender.

Outros valores, amplamente estudados pela psicologia humanista e social, só conseguem emergir quando a sobrevivência deixa de ser o eixo exclusivo:
valores de autonomia, cooperação, empatia, criatividade, responsabilidade coletiva, justiça. Eles exigem algo difícil para sociedades traumatizadas: confiança. Exigem tempo, escuta, abertura ao conflito sem aniquilação.

Escolher valores, portanto, nunca é neutro, é um ato político profundo.

No mundo atual, polarizado e exausto, somos constantemente empurrados a reagir: defender, atacar, vencer, silenciar. Tudo isso reforça valores de sobrevivência. A pergunta que a fala de Wagner Moura nos devolve é incômoda e necessária: o que estamos transmitindo para quem vem depois?

Porque valores também são aprendidos no corpo, não só no discurso. Crianças aprendem observando como lidamos com o diferente, com o erro, com o poder, com a dor do outro. Sociedades fazem o mesmo.

Romper ciclos traumáticos não significa negar o passado, mas escolher conscientemente quais valores não queremos mais reproduzir. Significa decidir que medo não será nossa principal herança. Que força não será confundida com violência. Que segurança não será construída às custas da exclusão.

Se o trauma é geracional, como ele é, então a responsabilidade também é.

E talvez o gesto mais radical hoje não seja sobreviver a qualquer custo, mas ensinar, pelo exemplo, que é possível viver a partir de valores mais amplos do que o medo.

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“Firme e Forte”