“Ciência Não É Opinião Bem Escrita”

Vivemos um tempo em que saber argumentar parece mais importante do que saber do que se está falando. Uma boa retórica, algumas referências soltas e um discurso seguro bastam para transformar opinião em “conhecimento”. O problema é que ciência não funciona assim, e a clínica tampouco.

Ciência não é aquilo que soa convincente.
Não é o que gera engajamento.
Não é o que confirma crenças prévias com uma linguagem elegante.

Ciência exige método, confronto com dados, revisão constante e, sobretudo, disposição para sustentar limites. Ela avança mais pelo reconhecimento do que não sabe do que pela afirmação precipitada do que supostamente domina.

Na psicologia, essa confusão é especialmente perigosa. Porque lidamos com sofrimento humano, com decisões que impactam vidas reais. Quando opinião se disfarça de conhecimento, o risco não é teórico, é ético.

Há uma sedução contemporânea pela simplificação. Protocolos rápidos, explicações fáceis, promessas de eficácia imediata. Tudo muito organizado, muito bem apresentado, muito pouco interrogado. A técnica vira produto, e o pensamento clínico vira acessório.

Formação, nesse cenário, passa a ser confundida com acúmulo de certificados. Quanto mais rápido, melhor. Quanto mais aplicável, mais vendável. O problema é que clínica não se sustenta em atalhos. Sem base sólida, o que se aplica vira repetição mecânica, e repetição não é cuidado.

Opinar sobre ciência é fácil. Sustentar prática baseada em evidência é trabalhoso. Exige estudo contínuo, supervisão, confronto com limites pessoais e reconhecimento de que nem toda pergunta tem resposta pronta. Exige, acima de tudo, responsabilidade.

A diferença entre ciência e opinião não está no tom de voz, nem na segurança com que se fala. Está no compromisso com aquilo que pode ser questionado, testado e revisado. Opiniões resistem à crítica; ciência depende dela.

Quando a psicologia se afasta desse compromisso, ela corre o risco de se transformar em discurso moral travestido de técnica. Em nome do cuidado, normaliza. Em nome da ajuda, simplifica. Em nome da eficácia, silencia a complexidade.

Não se trata de negar a experiência clínica, nem de reduzir o humano a números. Trata-se de reconhecer que experiência sem fundamento vira achismo, e achismo bem apresentado continua sendo achismo.

Levar a ciência a sério não é uma postura elitista. É uma exigência ética. É reconhecer que trabalhar com sofrimento exige mais do que boa intenção e boa escrita. Exige formação consistente, pensamento crítico e disposição para dizer “não sei” quando ainda não se sabe.

Em tempos de excesso de opinião, talvez o gesto mais responsável seja esse: recusar a confusão entre convicção e conhecimento. Porque ciência não é opinião bem escrita, e clínica não é lugar para improviso.

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