“O Elogio da Resiliência É uma Forma de Violência”
A resiliência se tornou uma palavra admirável.
Ela circula como elogio, como meta, como exigência moral. Espera-se que sejamos resilientes diante da perda, da traição, da violência, da precariedade, da sobrecarga. Espera-se que suportemos, e que façamos isso com dignidade.
Mas há algo profundamente perverso nessa admiração.
Quando a resiliência é celebrada sem questionamento, ela deixa de ser uma capacidade e passa a ser uma cobrança. Um imperativo silencioso que diz: aguente, adapte-se, não pare, não complique.
O elogio da resiliência raramente vem acompanhado de uma pergunta sobre as condições que tornaram essa resiliência necessária. Pelo contrário: ele costuma funcionar como absolvição do contexto. Se alguém consegue suportar, então o sistema que produz o sofrimento não precisa mudar.
Aplaude-se quem aguenta, e naturaliza-se aquilo que fere.
Há uma violência sutil em exigir resiliência contínua. Ela transforma o sofrimento em teste de caráter. Quem não suporta é visto como frágil, imaturo ou insuficientemente preparado para a vida. O problema deixa de ser o excesso de exigência e passa a ser a suposta incapacidade de lidar com ela.
Resiliência, nesse registro, não é força.
É adaptação forçada.
Ela aparece quando a dor não pode ser interrompida, quando a injustiça não será corrigida, quando a perda não será reparada. E, ainda assim, espera-se que o sujeito continue funcional, produtivo, disponível, emocionalmente regulado.
Famílias elogiam a resiliência para não tocar no conflito.
Instituições a celebram para manter desempenho.
Discursos motivacionais a vendem como solução individual para problemas coletivos.
O resultado é um sujeito cansado, culpado e silencioso. Alguém que sofre, mas aprende a sofrer sem atrapalhar. Que se adapta, mas às custas de si.
Há algo de profundamente político nisso. A resiliência, quando exaltada dessa forma, serve para preservar estruturas que adoecem. Ela desloca a responsabilidade do mundo para o indivíduo. Se você não deu conta, faltou resiliência, nunca condições.
Não se trata de negar a capacidade humana de atravessar adversidades. Trata-se de recusar a romantização da sobrevivência. Nem toda adaptação é saudável. Nem todo silêncio é maturidade. Nem toda força é escolha.
Às vezes, não ser resiliente é um gesto de lucidez.
É reconhecer que algo ultrapassou o limite do suportável.
É recusar a lógica que transforma violência em treino emocional.
Talvez o que falte não seja mais resiliência, mas menos exigência.
Menos heroísmo cotidiano.
Menos elogios à capacidade de aguentar o que não deveria ser imposto.
Porque há sofrimentos que não pedem adaptação.
Pedem interrupção.
E continuar chamando isso de resiliência é apenas uma forma elegante de manter tudo exatamente como está.