“Democracia por Conveniência”
Eu não gosto de ditadura.
Não gosto mesmo. Não gosto de autoritarismo, de culto à personalidade, de eleições coreografadas nem de regimes que tratam o Estado como propriedade privada. Isso não é novidade, nem posição corajosa. É o mínimo civilizatório.
O que me intriga é outra coisa.
Tenho dificuldade em acompanhar essa nova modalidade de defesa da democracia, uma versão flexível, seletiva e, curiosamente, muito ativa apenas em determinados mapas. Uma democracia que se indigna com rapidez cirúrgica, atravessa fronteiras com discursos morais bem ensaiados e se autoriza a fazer aquilo que, em outros contextos, chamaria de golpe, invasão ou abuso de poder.
Entrar em outro país, sequestrar um chefe de Estado e rebatizar a operação como “combate ao narcotráfico”, “defesa da liberdade” ou “ação humanitária” exige uma elasticidade conceitual admirável. A democracia, ao que parece, anda se beneficiando de um vocabulário criativo.
O curioso é que essa urgência moral não se distribui de forma homogênea. Há países onde a fome é estrutural, a repressão é cotidiana e a violência estatal é regra e, ainda assim, não despertam comoção suficiente para grandes cruzadas democráticas. Nenhum discurso inflamado, nenhuma pressa salvacionista, nenhum pacote de sanções acompanhado de coletiva de imprensa.
Outros, no entanto, parecem funcionar como gatilhos automáticos de indignação. Bastam algumas imagens, uma narrativa conveniente e pronto: ativa-se o modo “defesa da democracia”, geralmente conduzido por quem não é exatamente conhecido por zelo institucional dentro de suas próprias fronteiras.
É difícil não notar o padrão.
A democracia, nesse registro, deixa de ser princípio e passa a ser instrumento. Não se trata mais de proteger direitos, mas de justificar ações. Não se trata de coerência ética, mas de conveniência geopolítica. A pergunta deixa de ser “o que está acontecendo?” e passa a ser “onde está acontecendo, e com quem?”.
Nada disso transforma ditaduras em algo aceitável.
Elas continuam sendo o que sempre foram: regimes de concentração de poder, silenciamento e, violência simbólica e material. O problema é fingir que o abuso só é abuso quando praticado por determinados atores, e que, em outros casos, ele pode ser reembalado como virtude.
Abuso de poder continua sendo abuso, mesmo quando vem acompanhado de um discurso moral sofisticado. Intervenção continua sendo intervenção, mesmo quando recebe codinomes nobres. E violação de soberania não deixa de ser violação só porque foi apresentada como “necessária”.
Talvez o mais honesto fosse admitir que a democracia, no cenário internacional, raramente é o fim. Ela costuma ser o meio. Um meio útil, retórico, mobilizador, mas aplicado de forma desigual, conforme interesses que pouco têm a ver com o bem-estar real das populações envolvidas.
No fundo, o incômodo não é com a condenação das ditaduras.
É com a seletividade dessa condenação.
Quando a democracia vira argumento e não valor, ela perde a capacidade de proteger e ganha a função de autorizar. Autorizar sanções, invasões, tarifas punitivas, pressões econômicas e rearranjos de poder que, curiosamente, quase nunca atingem quem decide, apenas quem já vive em condições precárias.
Deve ser coincidência.
Ou talvez a democracia, assim como a indignação, funcione melhor quando alinhada a interesses estratégicos.
Ditadura continua sendo inaceitável.
Autoritarismo também.
Mas a hipocrisia moral que escolhe quando e onde se indignar não fica muito atrás.
E chamá-la de liberdade não a torna menos violenta, apenas mais bem apresentada.