“Já Passou” - É uma Forma de Silêncio
Essa frase costuma aparecer quando o sofrimento do outro começa a incomodar mais do que mobilizar. Quando a dor deixa de ser novidade e passa a exigir paciência, presença e tempo, coisas que raramente estamos dispostos a oferecer.
Dizer “já passou” é uma tentativa de encerrar algo que ainda pulsa. É uma forma socialmente aceitável de pedir que o outro se reorganize rapidamente para não perturbar o ambiente, a relação ou a narrativa de normalidade.
O problema não é desejar que a dor cesse. O problema é tratar o sofrimento como algo que deveria obedecer ao cronograma alheio.
Há experiências que não se dissolvem. Elas se reorganizam. Mudam a forma como confiamos, como nos aproximamos, como interpretamos o mundo. Exigir que “passem” é negar que algo real aconteceu.
O discurso do “já passou” é uma exigência disfarçada de consolo. Ele pede adaptação sem escuta, superação sem travessia, retorno à funcionalidade sem reconhecimento da ruptura. É um pedido para que o outro funcione melhor, não para que se sinta melhor.
Quando não há espaço para aquilo que foi vivido, o sofrimento não desaparece. Ele muda de forma. Volta como desconfiança, retraimento, hipervigilância, cansaço emocional. Volta porque não encontrou lugar.
Há algo de autoritário nessa frase. Ela define de fora o tempo do outro, como se fosse possível determinar quando uma ferida deveria deixar de doer. Como se a experiência pudesse ser apagada por repetição verbal.
Seguir vivendo não é o mesmo que estar ileso. Retomar a rotina não significa que nada tenha sido perdido.
Talvez o gesto mais honesto não seja apressar o fim da dor, mas admitir que não sabemos o que fazer com ela. Que sustentar o sofrimento do outro é difícil. Que o silêncio, às vezes, é mais cuidadoso do que uma frase pronta.
Porque aquilo que realmente passou não precisa ser decretado.
E aquilo que precisa ser encerrado à força, provavelmente ainda está vivo.