“Firme e Forte”
Durante três anos, eu reclamei de dor.
Dor de cabeça todos os dias. O dia inteiro. Sem intervalo. Sem trégua. Uma dor que não negocia, não avisa quando vai aliviar, não respeita rotina, trabalho ou humor.
Depois de um herpes zoster no nervo mastoide, veio a encefalite. Depois dela, a sequela. E com a sequela, um cotidiano que precisou ser reorganizado em torno da dor, ainda que ninguém visse isso.
Reclamar não ajudava, mas era o que existia. Era a tentativa de dar linguagem a algo que não tinha solução. E foi nesse tempo que comecei a escutar frases que não eram maldosas, mas eram reveladoras:
“Ué, ainda com dor?”
“Se tem dor, é porque tem cabeça.”
“Você é um termômetro cuca-dura.”
As pessoas não sabiam o que dizer. E, honestamente, eu também não saberia. A dor contínua não cabe na conversa cotidiana. Ela constrange, interrompe, tira o outro do lugar confortável de quem quer ajudar, mas não pode.
Um dia, depois de três anos, eu decidi parar de reclamar.
Não porque a dor tivesse ido embora.
Mas porque percebi que a reclamação já não encontrava escuta, apenas desconforto.
A partir daquele dia, quando me perguntavam como eu estava, eu respondia:
firme e forte.
A dor continuava ali. Continua até hoje.
Firme e forte.
Ela faz parte do meu cotidiano de um jeito tão profundo que já não sei exatamente quem eu seria sem ela. Não virou drama, nem superação. Virou convivência. Um acordo silencioso entre o corpo e a vida.
Esse foi o momento em que aprendi algo incômodo: parar de falar da dor não significa que ela acabou. Significa apenas que ela deixou de ter lugar no discurso do outro.
Chamam isso de resiliência.
Mas o que houve ali não foi força heroica. Foi adaptação por falta de alternativa. Foi entender que o mundo tem pouca paciência para aquilo que não passa. Que existe um limite social para o sofrimento aceitável, e que, depois dele, espera-se silêncio.
Desde então, eu não reclamo mais.
Não porque não doa.
Mas porque a dor já não encontra tradução.
A resiliência, nesses casos, não é virtude.
É sobrevivência sem plateia.
É aprender a funcionar apesar do corpo.
É continuar sendo considerada “bem” enquanto algo essencial segue fora do lugar.
Há uma violência discreta nisso tudo. Uma expectativa de que a pessoa siga adiante, produtiva, disponível, grata, mesmo quando o corpo insiste em lembrar que algo foi perdido.
Eu não sou resiliente porque quis.
Sou porque não havia escolha.
E talvez seja hora de dizer isso sem romantizar:
nem toda adaptação é saudável.
nem todo silêncio é maturidade.
nem todo “firme e forte” significa que está tudo bem.
Às vezes, significa apenas que a dor ficou, e que o mundo seguiu em frente sem ela.